Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011

Ela

Foi um encontro estranho. Ela é irmã dela, mas elas não se falavam, então não nos víamos. Só que eu sabia quem ela era e ela, quem eu era. Só que elas não se falavam, como eu já disse. Eu a vi poucas vezes. Sabia primeiro quem era de foto. Daí estava com ela quando nos encontramos por acaso e ela ficou estranhas e depois ela chorou muito em casa. Passou. Depois eu estava sozinho quando a vi de novo. Ela me viu na verdade. Me viu primeiro e veio falar. Perguntou como ela estava. Falei que estava bem. Nem eu sabia da gravidaz na época, da Ana Regina. Tinah poucos meses. Aí ela me contou outra versão e eu guardei para mim. Quando cheguei em casa a noite a encontrei, comentei que tinha encontrado ela, e ela ficou bastante perturbada. Disse que não conversei nada, mas era mentira, e ela sabia, mas resolveu deixar pra lá. Na verdade, elas se amavam muito, mas não conseguiam conviver. Só que, na verdade, elas conviviam. Eu ficava olhando pra ela e sabia. Ela acordava com ela no cvoração e quando encontrei com ela na rua daquela vez, sozinho, vi que ela também levava ela no coração. Tinha a ver com o pai, com a morte, com a mãe, com a infância, com Brasília. Sei lá. Com tudo. O fato é que elas se pareciam muito no fim. E ela tinha os olhos mais lindos que eu já vi. Era bom acordar de manhã com aqueles olhões me encarando. Ela fazia isso. Me acordava de me encarar. Engraçado. Ou então, batia o dedinho de leve na minha testa. Viajamos. Não ouvi mais falar dela e nem a vi, e nem a vimos. As coisas cresceram. Meu cabelo cresceu. Minha barba cresceu. Eu consegui fazer o mestrado. Ela também. Só que no caso dela, ela emagreceu, o cabelo encolheu. Ela desenhava cada vcez melhor, e ficava dividindo o espaço entre a fotografia, a pintura e a arquitetura. Passamos por poucas pendengas. Eu não tive dificuldade em arrumar emprego também. Desde o início. Três anos tinham se passado desde a cerimônia na praia, em trancoso. Nove desde o show dos Raimundos, quando a conheci. No show, elas estavam juntas. É verdade. Na verdade, essa foi a primeira vez que a vi. Mas ela foi embora cedo e nem cheguei a falar com ela. Foi pouco depois disso que elas se separaram, tudo aconteceu e elas pararam de se falar. Me lembra até aquele livro do Mário Vargas Llosa, Travessuras de Menina má. É que ela guardava muito segredo do passado. Eu conhecia ela e ficamos juntos 12 anos. Eu até passei a usar óculos de fundo de garrafa nesse tempo. Mas ela era sempre ela ali. Nunca fui atrás do passado. O passado está lá. A gente não tem que mecher muito. Aí veio a Ana Regina. As coisas estavam bem difíceis antes da Ana. Parecia que tudo ia ruir. Mas veio uma força com ela, e giz de cera, e lapis de cor, e choroo a noite, e renovação. Ela deu uma engordada. Lembro que a barriga cresceu redonda. Engordar mesmo, ela só engordou depois. Daí elas começaram a se falar por telefone. Parecia tudo bem. Elas se falavam umas quatro ou cinco vezes por semana, brigavam em quase todas. Era a Ana Regina quye fazia aquilo tudo. E era engraçado. Os olhões da Ana, igual aos da mãe, só que pretos. p´retos não, castanho escuros, iguais aos meus. Só que bem grandes eexpressivos, redondões. E eu até trocava uma ou duas palavras com ela por telefone. Uma vez ela não estava em casa. Só eu e a Ana. Aí aproveitamos e falamos por horas. Éramos, enfim, bons amigos. Até que teve um dia. Ela teve um vernissage em um restaurante chique. Era uma oportunidade. Eu fui e tudo, mas a Ana tava enjoada. Daí eu também tinha que voltar para lançar nota da meninada da faculdade. Ela ficou. Era gozado, estranho, mas bonito, quando ela se vestia para ocasiões chiques. Se adequava perfeitamente. mas parecia um anjo de qualquer forma. Então ficava um "Q" daquela moça de jeans e casaco colorido, toda animada do dia a dia. E ela ficou lá e eu vim. Quando saí, vi que ela estava na entrada, vendo tudo em segredo, para não estragar a noite dela. Mas não conseguia não ir, não ver aqueles quadros. Ela não queria que nós a víssemos e a Ana não a viu. As vezes ela buscava a Ana lá em casa. Mas só quando eu estava. Aí depois ela deixava e eu pegava com ela. Tínhamos a mesma idade. E eu era três anos mais novo que ela. E eu saí e tinha um brilho diferente no olho dela. E eu fui para casa. Botei a Ana na cama, lancei as notas. Ela não voltava, então peguei uma camisa bonita e escrevi uma poesia e fiz uma pintura de guache. Dependurei na porta. Liguei para ela e ela disse que não demorava, mas sem querer eu adormeci. No dia seguinte, só veio o policial. Daí doeu. Mas doeu muito. Mas muito mesmo. Doeu tanto, que era uma fenda no coração, que vazava amor e dor. E só quando eu pegava a Ana Regina no colo, que parava um pouquinho. Mas ela também. Tinha só dois anos na época. Mas percebeu. Sentiu tudo. Ela nos ajudou muito, e eu acho que a ajudei também. Quando foi o enterro, ela estava lá deitada com vestido de chita. Toda linda. Não parecia morta. Quando a gente morre. Parece que perde alguma coisa. Fica diferente. Mas ela não. Parecia estar lá, vivinha, só dormindo, só que não respirava. Foi o dia mais difícil da minha vida. Mamãe e papai conheceram ela lá. Deram a maior força também. No dia da morte, um dia antes, veio jornalista perguntar. Acidente no Eixão sempre dá matéria, né. Eu sabia bem disso. Mas não podia falar. Depois ela acabou indo lá pra casa. Fomos ficando muito amigos. A morte dela era uma coisa que unia a gente também. Ela escrevia. Então escrevíamos juntos. E a Ana gostava. Pelo menos não vivemos um dia em que colocamos um porato a menos na mesa, porque no almoço do dia seguinte ao dia do enterro ela estava lá. Ficou muito arrependimento. Ela queria ter entyrado no restaurante. Queria ter brigado mais para não separar. Mas ficou. Não tinha como mudar. Aí muito tempo depois, um dia, a Ana tava com os avós, e veio o vinho e a música e o papo furado e não sei como, mas eu e ela, eu nunca podia pensar, eu não imaginava. Eu e ela juntos, depois dela. Caramba! Mas veio. Veio forte. E ela trouxe o Rômulo. Aí, agora, somos quatro. Vovô já foi, só tem vovó. Ela não tem pais, como eu falei. E tem ela, a Ana Regina que tem 10 anos, e o Rômulo. Uma vida comum, sob o céu de Brasília. Quem sabe o que será delas? Eu não sei. Mas essa aí é minha história. Um pedaço dela. sem Muitos detalhjes. Escrita de uma vez, de sufoco, sem respeitar o teclado e o português, porque já já ela chega, e é festa surpreza, e a Ana vem gritar comigo que eu tenho que ir pra sala. Não gosto de escrever bonito quando escrevo pra mim. Gosto de escrever como se falasse. Desse jeito. Já vou, Ana!

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