quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

E não haveria Brasília


Se não houvesse o Oscar, não haveria Brasília. Seria outra coisa, outra cidade, outro mundo. Se assim fosse, não haveria Legião. Não haveria rock. Não haveria Paralamas, não haveria  107 Sul, Espaço Cultural da 508, não haveria Renato Russo, Dado, Bonfá, não haveria eu, não haveria você, não haveria Brasília, não haveria nada. Não haveria curvas, não haveria monumentos, não haveria o mármore branco de fogo que toca o chão, mas está voltado para o céu, não haveria céu, não haveria nada. Não haveria brigadeiro. Não haveria vovô Marcos, não haveria vovô Flory, vovó Hilda, vovó Rosa, não haveria nada. Não haveria sítio, Entorno, Campo da Esperança, Oscar, Elis, papai, mamãe, ninguém, nada. Sem o arquiteto, não haveria nada. Não haveria conto, não haveria Música Urbana, não haveria João Roberto, não haveria Vital, não haveria Cássia, não haveria UnB, não haveria cerrado nem Planalto. Nada! Não haveria nada! Não haveria. Seria um vazio. Não haveria bandeira nem presidência, hino, patriotismo, não haveria gigante adormecido, não haveria libélulas, aviões e braços abertos. Não haveria pulsos, não haveria pescoço, não haveria quadril, não haveria ave, não haveria. Não haveria João de Santo Cristo, não haveria Capital da Esperança. Não haveria Conic. Não haveria Pingo nem Grupo Carroça. Não haveria boneco dançante, bailarina, astronauta, Neil Armstrong ou Yuri Gagarin, macacão, plano, altiplano, cidades satélites, ronco de motor, Parque da cidade, Praça dos Cristais, das Fontes, de nada simplesmente. Haveria nada. Um imenso e estático vazio desconhecido. Uma árvore que cai no silêncio afastado da humanidade. Haveria nada. Sem candangos, sem JK, sem cobogó, sem piloti, sem STF, sem congresso, sem memorial, sem esplanada, sem eixos, só nada. Sem torre. Sem fantasmas no cerrado. Somente pó sangrento e Lobo Guará. Não haveria verde, não haveria concreto, não haveria W3, não haveria nada. Não haveria cadetes, polícia, exército, plataforma, rodoviária, L2, ângulos e elipses, não haveria nada. Não haveria jornal nem jornalista que o fizesse. Não haveria beijo, sexo ou carinho. Ilusão ou desilusão. Só um peito aberto e vazio. Mais nada. Um peito oco. Não haveria branco, verde, amarelo, hino, igrejinha, catedral, projeto, projetista, ideal e idealizador. Sequer a merda haveria. Sem jardins, sem foguete, sem Lua, sem Ana Lídia, sem Pataxó, sem eleições, sem burocratas, sem cargos comissionados, sem quadrilhas legislativas, sem bandos executivos, sem armações judiciárias, sem o látego e sem o alento. Sem filhinho babaca de desembargador, sem playboy, sem diferença social, sem Lago Paranoá, sem os dedos interraciais que se encostam nessa estranha ilha. Não haveria estranhamento, arte ou espanto. Não haveria cavalheirismo e pureza. Não haveria gentileza e respeito. Não haveria erro ou aprendizado. Não haveria meta. Não haveria texto, letra, fotografia, risco de luz, universo, sonho, amor e paixão. Não haveria crianças, não haveria nada. Não haveria nada porque não haveria eu. E eu nada veria e para mim, então, nada haveria. Eu que sou filho de Brasília. Eu que sou filho da cidade errante. Filho das asas abertas, do medo e da coragem. Do aprimoramento. Sem arquiteto, sem cidade, sem futuro que virou passado como compreender o mundo? Mas tudo há. Há o alento da vida, as possibilidades, o sonho e o amanhã. Há a batalha, há o amor, há o julgo e a liberdade, o bom senso e o contrassenso. Há o risco em cruz impresso no planalto central do país. Há o nascer e o pôr do sol, há estrelas e há mãe, pai, irmão, irmã e até coisas que houveram, e que só existem no pulsar musculoso do coração e na conjunção carnal elétrica dos neurônios. Há cada detalhe que não haveria para mim se eu não houvesse por conta de não haver Brasília. Mas, como existo, tudo há. O dito e o não dito, o oculto e o revelado. E se tudo há, saúdo-te arquiteto, pois toda conquista é mundana, toda batalha é terrena e ávida, todo trabalho é músculo, alavanca, relógio, ampulheta, suor e força. E a vida, bem, "a vida é um sopro". Adeus Niemeyer...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Brasílias

Naquele dia
Mergulhei em Brasília
De cara, de boca, de teimosia...

Naquele além
Não havia ninguém
Cidade céu, amém...


Naquelo rock
Que o Renato pode
Brasília pulsa e explode.


Naquele plano
Planalto insano
Crucifixo urbano...


Voa Brasília minha
De Horizontes sem esquina
Cinquenta e um anos de menina...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

LW32508SulGama

O amor, para ser amor de Brasília, amor mesmo, da Capital Federal, do Planalto Central, do Sonho de Dom Bosco, disso tudo (Dom Bosco não é um vinho barato?), tem que ser de altos e baixos, tem que ser chocante, de concreto, de linhas retas, de mármore e asfalto, e tem que ser alaranjado, bucólico, verde, de folhas secas, tem que ser seco, seco e frio, seco e quente, mas seco.Uma secura que cura. Ah, e tem que ser um lago inteiro. Para ser um amor de brasiliense, um amor de Brasília mesmo, tem que ser meio cerrado, meio UnB,meio Ceub, meio Parque da Cidade, meio Água Mineral. Amor, para ser amor mesmo, amor daqui, tem que ser Sul e Norte, tem que ser escrito com L, com W, com 3, com 2, com 508 Sul, com Gama, e enfeitado com cobogós e pilotis. Tem que ser crucificado em Eixos. Todo amor, que é amor que se preza, do Plano Piloto, da Libélula do Brasil, da capital da esperança, de vez em quando está voando, como os prédios do Niemeyer, como as paisagens de Lúcio Costa. Amor, para ser amor, tem que contar com poeta russo, com capital inicial e com uma colina. Nas horas mais punks, porque todo amor tem um momento punk, tem que ser aborto elétrico, tem que ter um pouco de detrito federal. Tudo isso. Tudo isso e mais um pouco. Amor que é amor tem uma ave branca, que em Tupi significa Tawa-tinga. É amor de invasão e é um poço azul, límpido, fresco. Amor, para ser amor de Brasília, tem que atingir de legião, tem que ligar as tripas e fazer poesia árabe no Beirute que chegue até o Líbano. Tem que ser de feiticeira louca. Amor é um pouco feliz, que nem o DI, e um pouco triste, que nemo o Polo de Cinema. Amor ceilandense, amor de núcleo e de candango, amor de águas claras, do Vicente com a Pires, do Eduardo com a Mônica, do Leo com a Bia, de várias formas, da Santa com a Maria, que vai até o entorno. Amor abrange tudo, que nem Brasília. Amor é isso e muito mais.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

51 anos de delírio

"Somos todos engrenagens de uma grande máquina
que às vezes anda para frente – mas ninguem
sabe para onde – e as vezes para
trás – ninguem sabe por quê."
Ernst Toller


Tem um fantasma, tem um fantasma no cerrado… Tem uma sombra ali. Disfarçada de Brasil, com cara de nordestino, jeito de paulista, marra de carioca, pose de sulista, passo nortenho, mil olhos e um jeito caleidoscópico, ela se multa em linhas retas, em curvas sóbrias e faz de conta que é sonho. É um fantasma no Planalto Central. Tem um fantasma no Planalto Central… Uma bela e insólita mulher que passeia sem nome e sem destino. É um monstro habitado por sombras de um passado estranho de um bebê velho e obtuso que perpassa a imaginação dos vagueantes anacrônicos estrangeiros da política brasileira. É um espectro, é um espectro na torre... Com zilhões de dedos coloridos que se transformam em raízes dos mais diferentes solos brasileiros, em formato de roupas, bonecos, balangandãs, pilotis e cobogós. Tem um ser translúcido ali. Tem sim, eu vi! Ele faz de conta que é sério, que é claro, mas não é. Seu Ser é o não existir. É uma multidão de fogos fátuos estudantis que passeiam com faixas com dizeres que, na verdade, nada dizem. Só há um branco mármore e corpos sem vontade própria andando a esmo em busca de uma causa perdida. Tem um octopus no jardim. Criatura gigantesca, fruto de pesadelos e delírios bem misturados desde o coma profundo de Dom Bosco. Ele dança com os tentáculos, derrubando metas, impedindo chegadas, transtornando o povo, envergonhando, abraçando loucuras. Os estranhos ladrões de letras e cores fazem sacrifícios entre os espelhos e as moradas voadoras e os blocos burgos enquanto uma multidão orbita perdida em periféricos satélites. O leviatã nada lúgubre em um lago de mentiras. O sonho não acabou, mas está perdido, interrompido, em suspensão animada, por tempo indeterminado, acorrentado por decretos, medidas provisórias e escândalos políticos secretos, que não aconteceram, que ecoam com uma voz opaca em meio às árvores tortas e aos buritis. Tudo acontece no mesmo lugar e ao mesmo tempo, nas costas da libélula gigante que voa caótica puxando o carro do País por entre as incompreensíveis engrenagens da história. E os prédios brotam do chão, e flutuam ao entoar da voz do poeta russo e das guitarras distorcidas, enquanto amantes se encontram às escondidas por um amor falso-verdadeiro. E casais procriam, e trabalham, e constróem, mortos-vivos do progresso, caminhando ninguém sabe para onde, ninguém sabe porque. E crianças selvagens brincam e correm, e facas assaltam, e revólveres atiram, e máquinas atropelam, e abismos derrubam, e chovem rochas, e surgem cadáveres, e nascem nenêns, e correm os jornalistas, e gritam os professores, e diagnosticam os médicos, e imitam os atores, em uma orquestra disforme como o cavalgar incerto do Planeta. Cercado pelas terras de ninguém, sem maiúscula em seu nome, a aparição sorri com fileiras e mais fileiras de dentes confusos divididos entre Norte e Sul. E essa bela mulher de braços abertos, riscada de negro com a maquiagem pesada, suspira e desaparece, goza e reaparece, chora e desaparece, gargalha e reaparece... Enquanto o crepúsculo em sangue tinge o infinito azul, cobertor do berço esplêndido, ela é só um fantasma quase invisível. Tem um fantasma no cerrado, tem um fantasma no planalto central. Ele atravessa as árvores e faz uivar os lobos guará. Correm centenas de capivaras, voam rolinhas e não há ninguém. Ele sussurra. Podem ouvir. Ele sussurra... Brasíiiiiiiiilia... Braaaaaaaaaasíliiiiiiiiia... Brasíliaaaaaaaaa... Braaaaaasíiiiiiiiliiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…

quinta-feira, 10 de março de 2011

Anel de fogo

Quando fui preso pela primeira vez, não tinha cabelo grande nem tatuagens. Já diziam que eu era duro como rocha. Eu gostava de fazer de conta que acreditava que era imortal. Mas eu não era duro nada. Foi a prisão que me deixou duro. Foi ficar em uma cela olhando a vida passar por três longos anos, foi ficar em solitárias, sobreviver lá dentro, conviver com outros piore que eu, que me deixou durão. Me lembro que gostava de correr e fazer barras, quando os chineses não estavam na praça de exercício. Lá, eles comem sua bunda pra mostrar quem manda. Lá, ou você fica durão, ou você fica durão. E foi assim que eu fiquei duro feito rocha. Quando fui preso pela primeira vez. O nome dela era Marta. Conheci na oficina do meu pai. Era bonita, jovem, inteligente, me ensinou um monte de coisas, dentre elas, a mais importante, trepar bem e amar os livros. Ela era casada, mas gostava de mim. Sei que gostava. Eu a tratava bem. Mostrava uma vida tosca, mas livre, que ela não tinha. Em troca, ela me dava amor e Dostoievski. Comigo ela conheceu a motocicleta e as montanhas. Com ela, conheci Boris Pasternak. Malditos russos fodidos. Acontece que ela era casada com um advogado almofada. Um puto que começou a me perseguir quando desconfiou de tudo. Acho que ele pagou um cara pra seguir a gente primeiro, só que eu não percebi. Mas eu vi quando ele me seguiu. Depois ele me mostrou uma arma. Não fiquei com medo. Acho que eu não era durão de verdade, mas já levava jeito para a coisa. Aí ela sumiu. Fui atrás dela. Ele tinha socado a cara dela. Eu surrei o cara. Ele ficou desfigurado, tenho certeza. Quase morreu. Deve ter voltado mais ou menos ao normal depois de pagar uma plástica. Aí eu toquei fogo no carro dele. E ela me rejeitou. Ela salvou o filho da puta. E de repente pareceu que o corno era eu. Fui encher a cara e a polícia me pegou. O pai dela, por incrível que pareça, foi que me ajudou. Meu velho não tinha nada. Ele morreu enquanto eu estava na prisão. Foi a última vez que vi a Marta, quando ela veio me contar. Uma prima distante cuidou de tudo e quando saí da prisão, não tinha mais nada. Não tinha sobrado nada. Mas eu já tinha tatuagens e cabelos longos. Já tocava violão e gaita. Já era duro o suficiente, e li como nunca. Dei um definitivo adeus para aquela família de loucos, peguei uma carona e fui para o Sul. Para o maldito Sul. Agora eu era um músico ex-presidiário que tocava na noite. Dava pra viver de espelunca em espelunca e, as vezes, tocando no metrô. Conheci o folk americano, a musica mexicana e o rock inglês Aprendi a arranhar algumas palavras. Quando juntei o suficiente, aluguei uma garagem e montei uma oficina. E parece que depois que você vai preso, você fica com um cheiro, uma marca. Os bandidos todos te reconhecem. Eu não era ladrão. Só tinha espancado um cara até quase a morte. Na verdade, fiz um favor para uma garota. Foi quando a Melissa me apareceu. Todas as minhas garotas, todas, desde que eu era adolescente, tem nomes que começam com “M” e são do signo de Gêmeos. Porto Alegre é um lugar muito bonito. O problema são os gaúchos. Mas Melissa era diferente. Ela trabalhava em um supermercado, estava grávida de três meses de uma menina que ainda não tinha nome. O pai do neném morreu assassinado. Dívidas de drogas. Agora o tio dela não a deixava em paz. Ela é branca, tem cabelos castanhos, usa uns óculos grandes, tem olhos pretos e adora violão. Caiu do céu para mim. Foi despejada. Morava no apartamento em cima da garagem de mecânico ao lado da minha, onde funciona um desmanche. O cara acha que eu não sei que lá é um desmanche. Viu só? Na tentativa de restabelecer minha vida, eu já estava cercado de bandidões. Só que eles eram um bando de bundas moles. Eu passei pela pior prisão. Sei identificar um cara perigoso. Você não pode vacilar com o leão e nem com a hiena. Eu sou o bom selvagem. A porra do bom selvagem, mas ainda sou selvagem, sacou? Daí que ela foi despedida e os pertences dela foram colocados na entrada da minha oficina. Aí eu disse pra ela ficar comigo, que eu tinha um quarto sobrando no apartamento de cima, que era empoeirado, que ela teria que dormir com os livros, mas que não tinha problema, eu não me importava em ficar no sofá. Era pra ser uma semana, mas eu enrolei bem a garota. Ela ficou 15 dias, um mês se passou e quando a barriga dela começou a crescer, eu já me sentia meio pai da criança. Porque diabos eu tenho o maldito hábito de pegar o que não é meu? Não sei. Primeiro, foi a Marta, agora, a pequena Regina. Quando o merda do tio da neném foi procurar a Melissa, eu boteu uma máscara de solda e liguei um maçarico e mandei ele cair pra dentro. Ele sacou a pistola e eu joguei a porra do maçarico na cara dele. Fez um machucado feio. O que ele ia fazer? Chamar a polícia? Ele era procurado por tráfico e roubo a mão armada. Juntei uma grana. Ele me procurou novamente com uns amigos, mas não estávamos em casa. Eles invadiram, quebraram tudo. Mas eu já estava de olho. Finalmente ia entrar para o crime. Professor Papillon me deu a dica, embora ele mesmo fosse inocente. Vendi o que ainda estava inteiro, comprei uma moto velha em boas condições e convenci meu bebê a largar o supermercado e partir comigo. O mundo era muito grande para ficar ali. Descíamos para a Patagônia e íamos subir até o Alasca pela Transamericana, para morrer de frio e ter nossa menina no norte. Vigiei o tio da minha filha. Chegou um carregamento grande de cocaína. Ele tinha matado um figurão. Entrei no esquema dele. Eu sabia que ele ia me entregar. Ele queria me sacanear. Dei ma de otário. Fiquei com toda a grana. Mas não fui rápido. Acabei preso novamente. E mulheres não sabem esperar. A Melissa ficou irada, me deixou e foi ter seu neném bem longe de mim. O otário do irmão do pai da filha dela foi preso um tempo depois. Uns amigos dele já tinham tentado me matar na prisão. Surrei os caras e depois ganhei o respeito deles. Quando ele entrou, eu já mandava num pedaço lá dentro. Conhecimento é uma arma perigosa. Acho que Deus queria que eu fosse burro. Se fosse, teria me fodido na primeira vez que fui preso, mas não teria sido pego novamente. Pretensão minha. Se fui pego de novo, é porque devo ser burro. Mas o otário tentou me matar três vezes. Só que diferente do advorrato, ele não tinha dinheiro para pagar uma plástica e eu acabei com a carinha dele. Ele ainda ia me agradecer na minha cabeça, eu deixei ele bem durão. Ele me deixou em paz, mas foi o jeito dele de dizer “Valeu, você estragou minha cara, sou muito mais feio agora, mas pelo menos me imponho. Não vou morrer banal igual ao meu irmão. Quando saí, com 29, cinco anos depois, acreditem, por bom comportamento, tinha U$ 300 mil bem escondidos para fritar. Eu estava em condicional, mas que se dane. Precisei de uma moto velha-nova e fui atrás da minha garota e da minha filha. Mas elas tinham desaparecido com a família. Ninguémsabia para onde elas tinham ido. Caralho. Roubei a grana para levar Melissa para conhecer a América, mostrar o mundo, mas ela não quis esperar. A polícia estava na minha cola. Eu não devia ter mudado de cidade sem avisar, mas se ficasse lá, também, os vagabundos donos do dinheiro iam acabar comigo. Mas ela tinha ido. Nessa época, comecei a deixar a barba, embora ela nunca crescesse muito, nem enchesse a cara. Ela não me visitou nenhuma vez. Eu não tinha mais esperança. Doeu muito por muito tempo. A cada dia de visitas, parecia que eu comia quilos de bolinhas demetal incandescentes. Ela não vinha, não vinha, não vinha. Não atendeu meus telefonemas e nem respondeu carta nenhuma. Uma vizinha desconfiada acabou me contando que a mãe morreu e ela foi para os Estados Unidos com um pessoal trabalhar de doméstica. O emprego é uma prisão. O dinheiro é uma prisão. Tudo isso é uma prisão. Só precisamos de grana para três coisas: bebida, cigarro e gasolina. O resto, a gente consegue sozinho. Comprei outro violão, meti nas costas, coloquei a roupa no alforje da moto. Nessa época comecei a ouvir muito rock. Eu já conhecia, mas estava realmente interessado. Comecei a viajar devagar, de cidade em cidade, tocando violão, quando eu conheci uma companhia circense do Ceará chamada Álamo. Comecei a me apresentar com os caras em Foz do Iguaçu. Tinha uma menina, filha do dono, que além de cuidar de toda a produção, fazia acrobacias e contorcionismo. Ela era linda. Era um verdadeiro anjo. Loira dos olhos azuis, como a mãe, uma mulher idosa, mas bonita pra caralho. O pai,um barbudo louco era um gênio, isso era inegável, mas era de difícil trato. O nome dela? Maria, com “M”, do signo de Gêmeos... (Continua)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

"Ceci n'est pas une pipe"

Rude estava sob o efeito da anestesia gasosa e adocicada do hospital. Mãos plastificadas cortavam e reviravam seus músculos. Ele quase podia ouvir. Ele quase podia ver. No fim de tudo restaria uma vaga lembrança, como se aquele momento na sala de cirurgia fosse um estranho sonho que lhe deixasse pontos no joelho e um movimento da perna a se recuperar com o tempo. Paralelamente às impressões, parte de seu cérebro sonhava, ou, quiçá, despertava, no momento da dormência dos sentidos, quando a alma pode enfim ter um pouco de lucidez. Não há como descrever exatamente as figuras, símbolos e sons que a alma produzia no entorpecer da muralha da existência física, mas era algo como ver diretamente os seres humanos suspensos e perdidos. Ou no melhor estilo René Magritte: "Isto não é um cachimbo". Isto não é o Planeta Terra. Este não sou eu. Esta não é uma mesa de cirurgia e isto não é um computador. E então milhares de botas em pernas de calças caqui marchavam compassadas reproduzindo trovões, ondas: "Vlam! Vlam! Vlam!", um passo depois do outro. Então a muralha foi crescendo, e crescendo, e crescendo, até que suas pálpebras se abriram em um fôlego afoito e profundo e ele sentiu a maca fria e o lençol grosso, e ouviu o barulho do monitoramento do próprio coração. Uma voz feminina, provavelmente de sua mãe ou de uma enfermeira lhe perguntou: "Acordou?". Ele compreendeu: "Não".

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Eu não existo

"O Sertão vai virar mar,
e o mar, sim, depois
de encharcar as mais
estreitas veredas,
virará sertão"

Antônio Conselheiro


Quando entrei no quarto de meu avô, o enigmático senhor Flory, naquela hora da madrugada, senti exatamente o mesmo cheiro que sentia quando criança, ao entrar na casa velha de Lavras, no sul de Minas Gerais. Todas aquelas madeiras antigas e rijas, recobertas de pó. O cheiro emanava da cama de meu falecido avô, e da cadeira quebrada encostada ao lado do estrado, que também estava encostado na parede. O plástico velho do assento se dobrava à fragilidade das juntas quebradas. Sentei nela aos três anos e eram fortes como um jovem à época, mas não resistiram aos solavancos e meu crescimento e do meu irmão, e do meu outro irmão, e do outro, e do outro, e do outro. Tudo aquilo me lembrava a cidade natal de meu pai. O quarto cheirava a alguma coisa que só então reconheci. Era o mesmo cheiro que Aureliano Babilônia deve ter sentido ao ler as últimas páginas dos pergaminhos de Melquíades, pouco antes da cidade dos espelhos, ou das miragens, ser varrida pelo vento. Era exatamente o cheiro da ventania que leva tudo o que existe e que se transforma em pó. Aquele era o cheiro da passagem do tempo, e nunca me dei conta. Literalmente debaixo do meu nariz. Ai de mim, que queria ser Peter Pan, que queria voar, lutar contra piratas, beijar Wendy e não envelhecer nunca, enigmático senhor Flory. Quando eu nasci você já era velho. Parece, em minha existência, sempre ter sido velho. As histórias da sua juventude remontam a Força Aérea Brasileira nos meados da Segunda Guerra Mundial. A mim, dessa triste batalha, só restam livros de histórias e relíquias de museus. Em contrapartida você nos deixou móveis antigos e uma folha de jornal. Meu avô é a Segunda Guerra Mundial. Brasileiros versus fascistas. Naquela hora olhei para os lençóis dependurados no varal do lado de fora, iluminados pela luz que fugia da janela, e imaginei um fantasma ou uma criatura maligna e bela entre os panos, me observando sem que eu pudesse percebê-la. Ninguém acredita, mas ela está mesmo lá. O véu sempre esconde a verdade. O véu da personalidade, o véu do tempo, o véu da noiva, o véu de Isis. Então caminhei apressado. Não mais que quatro passos para sair daquele quarto vazio que outrora, antes da queda do enigmático senhor Flory, era quase que como um templo, onde eu, neófito da vida, acólito da inexperiência, só entrava se autorizado, e mesmo assim, em silêncio, e não me demorava, padrinho. Estava tomado pela angústia. O sono não me vinha. Sentia vontade de fumar, de caminhar pela rua, de me transformar em um fantasma. Subia e descia as escadas. Enigmático senhor Flory, o senhor se deitou sem permissão. Ainda me lembro que meus lábios tocaram os seus e soprei meu alento para dentro de seu peito, imaginando que isso pudesse te trazer de volta. Ainda ouvi um gemido ao pressionar teu tórax em busca das batidas de teu coração, como quem cava à procura de um tesouro. Coisa que nunca contei a ninguém. Seria apenas um reflexo físico do ar que fugia de teus pulmões mortos mas, mesmo assim, pensei que fosse voltar comigo. Desde então o furacão voltou a ficar forte, e forte, e forte, e só agora começo a compreender que a tempestade que arrasa minha vida é esta mesma do Tempo, que vem soprando, matando e pulverizando tudo, cada vez mais rápida. Quisera eu ter olhos para todos os livros e imaginação para todos os contos. Mas sou só um homem atrasado que anda pela vida. Cheguei atrasado. Quase um mês depois do previsto, acho. O velho era o homem que sempre fora velho. Pena nunca ter alcançado suas manifestações, nunca ter subido alto o suficiente para ver, ainda que de longe, a luz dos seus pensamentos, para que eles iluminassem os meus agora. Um coração bate no meu peito. Tu-tum, tu-tum, tu-tum. O ar entre e sai dos meus pulmões. Meus nervos trabalham incessantemente, 24h por dia. Enigmático senhor Flory, foi assustador te ver deitado no chão, e não em sua cama, com os olhos vazios e esbugalhados, e a boca aberta e sem dentes. Quem esperava? O tempo. A morte. Castañeda sabe que ela está à nossa esquerda, a um braço de distância, esperando o último segundo para tocar nos nossos ombros. Se olharmos de relance e percebermos uma sombra, é ela. Tudo é passageiro, tudo é ventania, tudo é Macondo. Deus, leve-me embora de Macondo. Então chove e chove e chove. Volto à realidade. Sento diante da máquina de escrever e escrevo. A morte, bela e doce, fuma sentada à minha janela. Que pernas. Finalmente fumo um cigarro. Não sei ao certo o que é real e o que não é. Parece que ainda ouço aquelas palavras ao telefone. Giro o disco para chamar alguém. Parece que atravessei a última linha, em silêncio, como o soldado que caminha nas terras inimigas, mas sempre com a fronteira ao alcance da vista, como um navio português que contorna a África a caminho das Índias, sempre com a costa à esquerda. Respiro aliviado. Me sinto mais tranqüilo. Parece. Apenas parece. Enigmático senhor Flory, que sou eu, de onde venho e para onde vou?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Estrela longíqua

Estrela longíqua
(Luiz Calcagno)

De um riso-pranto,
Dez milhões de Sóis,
R136a1.
Duzentos e sessenta e cinco vezes
Maior que o astro rei,
Errê, cento e trinta e seis "a" um.

De um brilho-olho,
A maior estrela do universo,
R136a1.
Que se alimenta assim,
do teu riso-pranto,
Errê, cento e trinta e seis "a" um.

Inclculável distância,
Iluzório trajeto,
R136a1.
Estás em mim,
Quando me olhas com teu brilho-olho,
Errê, cento e trinta e seis "a" um.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Querido Caronte,

“Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara"
José Saramago

Saramago é autor de obras como Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Intermitências de Morte. As obras que compôs inspiraram contos e poesias deste blog. Morto por falência múltipla dos órgãos, na manhã dessa sexta feira, aos 87 anos, a literatura mundial perdeu um grande nome. Como todos os grandes homens, a profundidade do escritor talvez só seja realmente notada muitas décadas após o minuto exato desta publicação. Exijo, barqueiro, que transporte-o com as honras que ele merece. Que este epitáfio possa servir-lhe como moeda para a travessia. Leve em conta que poucos enxergaram o ser humano como ele, nesses tempos de cegueira branca e falta de lucidez. Segue o discurso proferido pelo escritor em 1997, quando recebeu o título doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB). O texto também está no site de universidade. Viva uma nova literatura! Ursos e Ornitorrincos a todos! Meu mais sincero adeus.

O Caderno de Saramago


"Magnífico Senhor Reitor da Universidade de Brasília, Ilustres Professores, Estimados Alunos, Minhas Senhoras, Meus Senhores

Decidiu generosamente a Universidade de Brasília, sob proposta do seu Departamento de Teoria Literária e Literatura, conceder-me o grau de Doutor «Honoris causa», por pensar haver no trabalho literário que venho realizando méritos suficientes para tal, o que, obviamente, não me compete a mim confirmar ou pôr em dúvida, limitando-me tão-só a relativizá-los, não por uma modéstia congênita ou por uma deliberada prudência táctica, mas por uma atitude de espírito que já se me tornou em segunda natureza. Autorizo-me porém a crer que se cheguei a este acto com a legitimidade de quem a ele foi expressamente convocado, não me apresento de mãos vazias. Trouxe comigo algum trabalho, alguns livros, idéias, reflexões, o melhor que em uma vida já longa pude ir inventando e fabricando, uma ponte de palavras por onde intento chegar aos meus leitores e onde desejo que os meus leitores me encontrem, com a confiança, deles e minha, de que lá esteja e saiba estar, não apenas o autor, mas a pessoa real, o homem que sou. Não peço mais porque é o máximo que peço.

É conhecido o caso daquele moço que, sem nunca ter tomado aulas de belas-artes ou aprendido de mestres particulares, e não dispondo de melhor ferramenta que um simples canivete, em pouco tempo transformava um toco de madeira bruta no mais acabado e perfeito urso de que rezariam histórias da escultura se fosse objectivo delas ocupar-se de talentos rústicos e paisanos. Aos que se maravilhavam com a rapidez e o jeito, o rapaz respondia invariavelmente: «Não tem nenhuma dificuldade. Agarro na madeira e fico a olhar para ela até ver o urso. Depois é só tirar o que está a mais.» O nosso escultor ingênuo dava-nos, assim, duas lições: a lição da modéstia e a lição da generosidade. Revelava-nos o seu segredo de oficina e ensinava-nos como deveríamos proceder para criar um urso: olhar para onde ele não está e, apenas com o olhar, fazê-lo aparecer.

Mas, ai de nós, não há perversidade maior que a dos ingênuos. Este amável moço, tão prestante em explicar-nos como fez não deixou que lhe saísse da boca uma única palavra sobre como se faz. O urso está ali, vemo-lo, mas entre ele e as nossas mãos há uma muralha de madeira fechada, com nós duríssimos, veios intratáveis, traiçoeiras maciezas da fibra: é por de mais evidente que será preciso muito engenho e arte para abrir caminho. A arte, afinal de contas, não é fácil, o rapaz dos ursos esteve a divertir-se á nossa custa.

Contudo, bem descuidado seria quem se atrevesse a jurar que no interior de cada pedaço de madeira não há um urso à nossa espera. Há, e há sempre. Ainda que não consigamos vê-lo distintamente, ao menos devemos ser capazes de adivinhá-lo, de intuí-lo, aparece-nos ao longe como uma luz instável e lenta, um vago luzeiro, tão vago que mal chega a iluminar-se a si mesmo.

Assim foi como me apareceu também o que sobre uma presumível relação entre o antigo canto e um novo romance aqui me propus dizer-vos. Julguei perceber-lhe os contornos, tornar-se nítido e preciso o vulto, cheguei mesmo a pensar que me bastaria estender a mão e tomá-lo firme, mas no momento triunfal em que vou exclamar: «Minhas senhoras e meus senhores, aqui está o urso», verifico que tudo não era mais que ilusão e ludíbrio, e apenas tenho para apresentar isto que aqui se vê, um tronco cortado, um cepo, uma raiz torta. E outra vez a luz começa a pulsar, como um coração que chama: «Tirem-me daqui.»

Disse canto, disse romance, e essa relação, esse percurso, essa viagem por espaços, mundos e tempos, desde os poemas homéricos a Marcel Proust ou James Joyce, passando pelas Mil e Uma Noites, pelas epopéias indianas, pelas parábolas dos livros sagrados, pelo Cântico dos Cânticos, pelas fábulas milésicas, pelo Asno de Ouro, pelas canções de gesta, pelos ciclos de Roldão, da Demanda do Graal, de Alexandre, de Robin Hood, pelos Romances da Rosa e da Raposa, por Gargântua, pelo Decameron, por Amadis de Gaula, pelo Quixote, e também por Gulliver e Robinson, por Werther e Tom Jones, por lvanhoe e Cinq-Mars, pelos Três Mosqueteiros, pela Nossa Senhora de Paris, pela Comédia Humana, pelas Almas Mortas, pela Guerra e Paz, pelos irmãos Karamazov, pela Cartuxa de Parma, pelos Maias, por Braz Cubas, até agora, até aqui - essa viagem começou um dia, em voz e em grito, à sombra de uma árvore, ou no interior de uma gruta, ou num acampamento de nómadas à luz das estrelas, ou na praça pública, ou no mercado, e depois houve alguém que escreveu o que tinha ouvido, e a seguir veio alguém que escreveu sobre o que tinha sido escrito antes, ouvindo sempre, escrevendo sempre, dispondo palavras em silêncio, infinitamente repetindo, infinitamente variando.

Importa-me pouco a mais do que provável incoincidência desta visão lírica do trânsito histórico de narrativas entoadas, de melopéias, para uma escrita organizada e disciplinada, obediente a regras, a preceitos, a normas, a convenções que nunca o serão menos pelo facto de serem transitórias, substituídas por outras convenções, condenadas por sua vez em lhes chegando o tempo. A evocação que aí deixei serviu apenas para ilustrar, tão persuasivamente quanto fui capaz, o que teria sido a passagem de um canto narrativo à narração escrita. Bem mais difícil me será propor, como hipótese plausível, que o gênero literário a que damos o nome de romance, tendo chegado ao extremo do arco que, como imaginário pêndulo, traçou, se lança agora, retornando, pelo caminho por onde veio, até chegar outra vez ao canto primordial, donde teria de recomeçar a viagem já conhecida, galgando mais uns quantos séculos para o futuro.

Não sou tão desprovido de senso comum. Dinâmica e cinética são programas de um diferente foro do conhecimento, e a literatura, se infinitamente repete, como já foi dito, também infinitamente varia, como foi dito já. Visto o que, no ponto em que nos encontramos, é irresistível recordar aquele Pierre Menard, autor de um Quixote literalmente idêntico ao de Cervantes, consoante nos informa Jorge Luis Borges nas suas Ficciones, e que, tendo repetido, palavra por palavra, o imortal «Manco de Lepanto» (assim o designamos para não lhe repetir o nome, sina de que por fortuna escapou Camões, pois a ele ninguém, até hoje, ousou chamar «Zarolho de Ceuta»), diz, muitas vezes, coisas bem diferentes, não mais do que por diferentes serem os modos de as entender, neste século XX em que ainda estamos e naquele século XVII em que nunca poderemos estar. Este exemplo mostra-nos que qualquer repetição exacta é impossível e que, na sua viagem de retorno às origens, ao outro extremo do arco, o pêndulo, ainda que percorrendo uma identidade reconhecível, iria deixando atrás de si algo como uma alteridade coincidente, se se pode admitir uma tão grosseira contradição em termos.

Ora, se ao romance não é permitido fazer nenhum percurso inverso, se Pierre Menard, tendo fiel e escrupulosamente copiado o Quixote, acabou por escrever outro livro, como alcançaríamos nós de novo o canto, o desejado canto, e, se lá chegássemos, que canto seria esse que a nossa boca formaria, ainda que fosse igual a música e fossem iguais as palavras? Os homéridas não têm mais lugar neste mundo, o tempo é, de todas as coisas, a única que não se pode emendar. Que restará, então? Como iremos inventar o canto novo, esse a que me estou obrigando? E com que pertinência me proporia eu, se essa fosse de facto a minha intenção, anunciar o advento de novas formas literárias, sem cuidar de saber se isso agradaria ou conviria a quem as tivesse de viver e praticar? Chamar Homero aos nossos dias, «homerizar» o romance, terá sentido? Estas perguntas, em si mesmas, e pelo ordem em que se apresentam, não são inocentes. Autorizam-me, enfim, a trocar o geral pelo particular, penetrando no único universo de que posso falar com a legitimidade que dá o conhecimento de causa, isto é, no meu próprio e pequeno mundo, o do romance que faço, o seu porquê e o seu para quê.

Comecemos por considerar o tempo. Não este em que nos encontramos agora, não aquele outro que foi o do autor quando escrevia o seu livro, mas o tempo contido e encerrado no romance, e que tão-pouco é o das horas ou dias que levará a ser lido, ou uma referência temporal implícita no discurso ficcional, muito menos um tempo explicitado fora do narrativa, por exemplo, o título que recebeu, caso de Cem anos de solidão ou de Vinte e quatro horas na vida duma mulher. Falo, sim, de um tempo poético, feito de ritmos, de suspensões, um tempo simultaneamente linear e labiríntico, instável, movediço, tempo capaz de criar as suas próprias leis, um fluxo verbal que transporta uma duração e que uma duração por sua vez transporta, fluindo e refluindo como uma maré entre dois continentes. Este tempo, repito, é o tempo poético, usa todas as possibilidades expressivas do andamento, do compasso, da coloratura, é melismático e silábico, longo, breve, instantâneo. De um tempo assim entendido tem sido minha ambição que vivam as ficções que invento, consciente de que estou querendo, mais e mais, aproximar-me da estrutura de um poema que, sendo expansão pura, se mantivesse fisicamente coerente.

Afirmam músicos e musicólogos que uma sinfonia, hoje, é algo impossível, como o será também, mas isto digo-o eu, esculpir um capitel coríntio segundo os preceitos clássicos. Claro que qualquer pessoa, desde que dotada de habilidade suficiente, estará em posição de contrariar uma tal interdição de princípio, compondo de facto a sinfonia ou esculpindo de facto o capitel: o que dificilmente poderá é levar-nos a acreditar que, fazendo-o, estaria a responder a uma necessidade autêntica, tanto no plano da sua criação quanto no plano da nossa fruição. Ora, quem sabe se não deveríamos nós próprios confrontar-nos com a responsabilidade de aplicar a mesma sentença ao romance, afirmando, por exemplo, que também ele se tornou impossível na sua forma por assim dizer paradigmática, prolongada até hoje apenas com variações mínimas, só muito raramente radicais e logo assimiladas e integradas no corpo tópico, o que vem permitindo, com a graça de Deus e a benção dos editores, que continuemos a escrever romances como comporíamos sinfonias bramhsianas ou talharíamos capitéis coríntios.

Mas este romance que assim pareço estar condenando contém acaso em si, e já nos seus diferentes e actuais avatares, a possibilidade de se transformar no lugar literário (propositadamente digo lugar, e não gênero) capaz de receber, como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio, e também da filosofia e da ciência, tornando-se expressão de um conhecimento, de uma sabedoria, de uma mundivisão, como o foram, para o seu tempo, os grandes poemas da antiguidade clássica.

Porventura estarei caindo num erro de perspectiva, se tenho em conta a crescente e parece que irreversível especialização, já quase microscópica, das aptidões humanas. Não é impossível, porém, que essa mesma especialização, por força de mecanismos ou impulsos de compensação, e talvez como condição instintiva de sobrevivência e de reequilíbrio psicológico, nos leve a procurar uma nova vertigem do geral em oposição às aparentes seguranças do particular. Literariamente, porque só de literatura é que estou falando aqui, talvez o romance possa restituir-nos essa vertigem suprema, o alto e extáctico canto duma humanidade que ainda não foi capaz, até hoje, de conciliar-se com a sua própria face.

E assim concluo. Manejando o meu canivete rombo, aparei e escavei o pedaço de madeira que aqui trouxe. Juro-vos que via o urso antes, via-o perfeitamente, juro-vos que continuo a vê-lo agora. Mas não tenho a certeza - culpa minha - de que o vejais vós. Provavelmente saiu-me a estatueta de um ornitorrinco, esse mamífero desajeitado, com bico de pato, feito de peças soltas de outros animais, desconforme, bicho fantástico - ainda que não tanto quanto o homem. Este que somos quando escrevemos romances, ou os lemos. Interminavelmente.

A última palavra, Magnífico Senhor Reitor, será para expressar, como escritor, mas igualmente como português, o meu profundo reconhecimento pela honra que a Universidade de Brasília me concedeu acolhendo-me entre os seus. Procurarei, em todas as circunstâncias, ser digno dela, não desmerecer jamais do vosso bom juízo, graças ao qual se me abriram as portas desta casa, que a partir de agora considerarei também minha. Muito obrigado."

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sussurros catedrais

Brasíííííííííliaaaaaaaa... Brasíííííííííííííííííííííliaaaaaaaaaaaaaaaa...
Brasíííííííííííííííííííííliaaaaaaaaaaaaaaaa... Brasíííííííííliaaaaaaaa...
Brrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaasíííííííííííííliiiiiiiiiaaaaaaaaaaa...
Uma voz clamava em sussurro... O mármore nobre brotava dilapidado e limpo da terra vermelha. Edifícios se erguiam como fantasmas que saiam das sepulturas, em meio as árvores distorcidas e rústicas. Um braço se estendida, outro em seguida: W3. E então em uma cruz, Eixos, tudo! Deuses adormecidos abriam os olhos. O céu crescia e azulava. Todos os regimes políticos, todas as religiões, todas as cores, todas as línguas... As almas clamavam em chama branda e crepitante Brasíííííííííliaaaaaaaa... Brrrrraaaaaaaaaasíííííííííííííííliaaaaaaaaaaaaaaaa... E a canção reverberava nas curvas e linhas retas, e as flores explodiam em meio a jardins espirituais. Pombal e bandeira. Mãe!? Alguém chamou... Pai! ? Alguém disse... Alguém aí!? Gritaram.. Guenhaíguenhaíguenhaíguenhaí!?... Respondeu a voz do Eco. O sol ardia sobre as construções oníricas que flamejavam. O coração do Brasil. Ela não foi construída, foi conjurada, não veio a um chamado, mas a uma convocação, com seu groso concreto que flutua inexplicavelmente, sua doce ordem mistérica. O coração batia forte ao ver a graça de um esquecido Deus. O céu se unia à terra nos gomos da catedral-pirâmide. Tudo respondia ao sol que vem do leste. Outrora, com força, eles ouviam os sussurros. O peito tremia vibrando no ritmo das batidas do coração. Braaasíííííííííííííííííííííliiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaa... Uma voz baixa que ecoava da alma dos brasileiros. Já estava lá, mas ninguém a ouvira antes, a não ser Dom Bosco. E os candangos caminhavam para o interior vazio, em uma terra onde tudo é nascer do sol.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Nos braços da W3

Às 6h30 Zaratustra caminhou sobre o telhado, equilibrou-se sobre o muro e pousou com graça no gramado, cortando o jardim verde até o reboque, do outro lado. Entrou na escuridão e se abrigou. Gatos gostam de lugares quentes. Alguém deu a partida no carro e saiu. O sol já ameaçava brilhar forte. O veículo percorreu a Estrada Parque Indústria e Abastecimento, entrou pelo Eixão, que estava fechado, desviou pelo Eixinho W Norte, caminhou por sobre as tesourinhas e escutou 10 minutos de badaladas de sinos da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida. Lá atrás, Zaratustra saiu da penumbra divertindo-se com coisas invisíveis. Cidades satélites, que giram em torno da utopia. O carro desceu para a rodoviária, entrou no Eixo Monumental, passou por debaixo da plataforma, pela entrada da W3, pela Torre de TV, pela Funarte, pelo palácio do Buriti, fez o retorno no Memorial JK, entrou no Setor de Industrias gráficas e estacionou em frente ao edifício do Diários Associados. Jornalistas de plantão já começavam o dia. Ela desceu do carro e acendeu um cigarro. Branca como a neve, como os palácios de Niemeyer, com o cabelo pintado de vermelho, como a terra do planalto central, com os olhos incrivelmente azuis, como o céu da capital, e com os lábios plácidos como um lago. Completamente solitária, como um sonho de Dom Bosco. Ela era um sonho, vivendo entre os monstros da própria criação, contando o tempo perdido, celebrando a estupidez humana, com festa, velório e caixão, seria apenas sua imaginação...* Uma tragada mais longa que a outra, inebriando a alma, tranquilizando o corpo, aquela personificação da cidade, em linhas e curvas tão belas, não tinha motivo para estar ali. Era aniversário da cidade. Tudo poderia acontecer. Seu celular não tocou. Zaratustra saiu de casa para mais uma de suas andanças. Tudo vibrava. A jovem olhou para o próprio pulso. Uma tatuagem dizia W3 Sul, e uma cruz, os traços do arquiteto, tudo preto, como se fosse mal rabiscado. Ela desapareceu na última tragada, deixando o carro aberto e a bolsa sem documentos sobre o capô. Tudo inexplicável. Brasília, incompleta, eu te amo.

* Urbana Legio Omnia Vincit

Bloco das nuvens...
Utilidades ou não...
Última parada...
Mensagens do dia...
O tal da filosofia...

terça-feira, 6 de abril de 2010

A partida do Tigre

(Luiz Calcagno)

Em pensar que para mim
Com você tudo era claro.
Os teus cachos nos meus dedos,
Os teus beijos, meu regaço...

Em pensar que então, depois,
As circunstâncias mudaram -
Aqueles de quem tu eras,
Dos meus sonhos te arrancaram.

E você foi-se em espanto.
Fiquei só, a lhe esperar.
Nosso perto fez-se amplo,

Nosso lago fez-se mar,
E no final dei meu pranto,
À noite escura e sem luar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Cândida Distância

Que chama lateja e queima?
Trepida sobre a pele trêmula e escorre.
Que chama vermelha de fricção,
Carne ferida, assada, engole?

Que chama dolorosa de amor?
Que amor pungente?
Que poder latente?
Que uma hora desperta,
E na outra adormece?

A febre fria das paixões,
A distância cândida da alma,
O trotar caótico das palavras,
Que chocam-nos contra as paredes.
Amor, amor, amor lascinante,
Lascera os olhos,
Faz brotar as lágrimas e derrubar estantes.

Essa dor profunda que faz nascer rebentos,
Que arranca almas do além,
Que devolve âmagos ao corpo físico,
Abandono da existência. Largo do mundo,
Raso ou profundo...

Ai amor louco de palavras loucas,
De palavreado duro,
De canções complicadas,
De ritmos, de festas, de velórios e alvoradas,
Amor da aurora, d'Estrela Dalva,
Amor de poesias, sem cargas pesadas,

Amor assim, simples, azul turquesa,
Nos quartos em reforma,
Nas camisas pintadas a mão,
Nos pés descalços emáquinas fotográficas,
Nas tardes de domingo.
Assim...
Simplesmente...
Amor.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Velharias

Poesias da antiga casa, que eu resolvi deixar aqui...

Richthofen
(Luiz Calcagno)

Mui bela és tua figura
Morte Ruiva se aproxima
Não te culpo pelos teus crimes
Em meu altar tu és rainha

Sei que é loucura minha
Morte Ruiva e estrangeira
Sei que é loucura minha
Meu amor é só besteira

Mas mesmo assim sonho
Contigo madrugada adentro
Imagino seus beijos quentes
Claudicantes, úmidos, lentos...

Imagino teu corpo branco,
Desnudo, trêmulo, culpado
Minhas mãos quentes passeiam,
Por terrenos nunca d'antes desejados

Morte ruiva e condenada
Richthofen tu és tão bela,
Solitária, poderia ser amada?
Seria meu peito tua eterna cela.


Melhor

Foi melhor pra mim,
Ou foi melhor pra você?
Não vou desistir assim,
Nem parar de beber.

Seus olhos são os melhores
Que alguém poderia ter,
Sinto saudades de tudo,
Não poderei mais viver...

Se foi tão bom assim,
Então foi melhor pra você.


Menina

Aquela voz estridente,
Que dá gastura na gente,
Aquele rosto fino,
Com cara de menino,

Pensando nas espinhas,
Que dão até nojo,
Naquele hálito de miojo,
naquele nariz inchado,

Pensando bem,
Acho que estou apaixonado


Shut Down

Maria nada via, só seguia,
E Edgar sozinho no solar,
Mais um amor terminava,
Mais uma gota no mar.

E doía tanto o coração,
Doía de não conseguir respirar,
Sem Maria, Edgar decidiu tudo,
Decidiu, pois, ia se desligar.

Não demorou pra correr a notícia,
Ele não estava mais no solar
Arrependeu-se então Maria Bela,
E como ele decidiu se desligar...


Profano - a paródia

Creio em mim mesmo,
Nada poderoso,
Criador de minha realidade,
E em meu coração egoísta e pagão,
Que foi esfaqueado, esmagado e espalhado.
Creio na minha batalha,
Creio em John Lenon,
Na comunhão dos sexos,
Na epifania dos meus pecados,
Na putrefação da carne,
Na vida enferma,
Ah, nem...


Pontada...

Esse lance de lança,
No meu amargo coração,
Está incomodando tanto,
Estou cheio de preocupação.

Esse lance todo de guerra,
Toda essa decepção,
Está lançando no mundo,
Uma onda de depressão.

Mas deixe de brincadeira,
E desse alvoroço gigantesco,
Será que você não entende,
Lança no dos outros é refresco.


Cara de cicatriz

O ferimento não fechou...
Eu é que absorvi.
Eu devoro as cicatrizes,
Que o tempo esqueceu aqui.


Maria Déia e Virgulino Ferreira

Senhora Maria Déia,
Esposa de Zé Neném,
Filha de Maria Joaquina,
Não era Maria ninguém.

Maria de Malhada do Caiçara,
Com certo cangaceiro fala
E vai ser na porta do rifle,
A mais doce e certeira bala.

Dona Maria Bonita,
Maria do Capitão,
Maria Gomes de Oliveira,
Maria de Lampião.


Onze mais três

Onze chances tivemos,
Onze vezes erramos,
Onze horas perdemos,
E ficamos aqui orando.

Onze dias se foram,
Onze dos nossos morreram,
E depois das onze da noite,
Onze garrafas bebemos.

Onze foram as vezes
Que tentaram me avisar,
Que aquelas onze pessoas,

Naquelas onze semanas,
Por onze deuses e onze diabos,
Iriam me exterminar.


Meretriz

Recebi um e-mail seu,
Com palavras duras e muito cruéis,
Uma verdadeira condenação,
Além de me proibir de voltar,
Além de me encher de aflição,
Me mandou pagar a conta,
Do seu vendido coração.


Três Versos

Errei por diversas vezes,
E errei mesmo, sem parar,
Por nada que tentasse me deter,
Continuei ignóbil, a errar.

De tanto errar uma hora acertei,
Por perseverar, por não desistir,
Por nada que tentasse me obliterar,
Não queria nunca deixar de existir.

Assim resumo meu amor por você,
Minha alma e meu golpe perverso,
Só fiz porque achei que merecia
Uma trilogia de versos.


Ela

Sob o seio do abatimento,
Anônima beleza,
Vejo a partida dela,
E percebo com destreza,
Que ela foi embora,
Só pra me causar tristeza.


Passos mitológicos

Numa casa abandonada,
Numa estrada estranha,
No passado da humanidade,
No fundo de um velho baú,
Cuja visão infundiria,
Saudade, lembrança, romaria,
Desejo, memória, nostalgia,
Encontrei minha ancestralidade.

Era tal a idade,
Daquela máscara vermelha,
Que me servia qual uma segunda pele,
Que me revelava um história,
Que somente em torno da fogueira,
O bisavô de meu tataravô Pereira,
Dançando e erguendo poeira,
Me ligaria a um antigo Deus.

Quando minha Mãe me disse adeus,
Fiquei só comigo mesmo,
E encarei a jovem figura,
No espelho da parede,
Tive de devorar meu medo,
De um engano que era ledo,
E roubar o meu segredo,
E lutar e escapar caverna.

Foi mancando de uma perna,
Que consegui vencer a luta.
Quebrou-se então a velha persona,
E minha face revelou,
Com a graça das ariranhas
Do mais profundo de minhas entranhas,
Sob formas deveras estranhas,
Um coração sem nenhum receio.

Não era produto do meio,
Vindo do próprio Hades,
Era um épico trajeto,
De árdua caminhada.
Foi então de força bruta,
Sob o suor da labuta,
Que a minha história foi fruta,
Do nascimento do Ser.


Desilusão

A casa era pequena,
O caso era confuso,
A moça fazia cena,
O retrato era difuso.
O rapaz se aproximava,
Com seu olhar intruso,
A menina que o observava,
Vestia uma moda em desuso.
Isso foi numa espelunca,
Numa cidade distante,
Depois sobre a luz da Lua,
Tornar-se-iam amantes.
Ele seria fotógrafo,
Ela seria bióloga,
Estudariam psicologia,
Nas suas horas de folga.
Teriam uma criança logo,
A vida seria colorida,
Num altermundo distante,
Bem longe de nossas vidas.
Seriam felizes para sempre,
Como nos contos de fada.
Até que bombas atômicas
Arrancassem suas asas.
Tudo terminaria deserto,
Sem cão, sem árvores nem nada.
Então o futuro seria incerto,
Sem cornetas na alvorada.
Sob a luz laranja do Sol,
Não haveria museu, não haveria espada.
Nem canção mais haveria,
Muito menos essa poesia.
Só restariam solitárias estradas.
Sob a luz laranja do Sol,
Não restaria mais do que um triste nada...


O mentiroso

O meu cartão de visitas,
Nunca foi muito bem vindo,
Não é o Pão de Açúcar,
Nunca será o Pelourinho,

O meu cartão de visitas,
É uma porta fechada,
Para todos os românticos,
Para o coração da amada.

O meu cartão de visitas,
É um cerrado punho direito,
Com um anel grande no dedo,
Sou o valentão perfeito.

O meu cartão de visitas,
É uma mentiraiada,
Sou um pobre romântico,
Desses que não valem nada.


Repórter fotográfico

Depois do atropelamento,
O jornalista se aproximou,
Tomou a vítima nos braços
Abraçou a jovem e olhou.
Foi beijado e retribuiu.
Com toda obediência.
Sem saber daquele beijo,
Qual era a procedência.


Loucura

Ela riscava com os finos dedos
Ladrilhos embaçados pelo calor.
A jovem guardava consigo segredos,
Invenções e desventuras, verdades e medos,
Ela não tinha em seus auspícios,
Que aqueles ladrilhos do quarto,
Naquela sala vazia,
Eram os azulejos do hospício.


Pelo corpo de Estela

Dedo mirando o céu,
Apontando para as estrelas.
Dedos de ternura,
Na ponta do nariz dela.
Dedos de ousadia,
No meio de das pernas de Estela.

Gritos atrás da porta,
Pelos meus simples gestos.
Palavras de rude paixão,
Bebendo seu caldo indigesto,
Dedos pelas suas costas,
Nunca fui muito honesto.

Bandoleiro sorrindo sozinho,
Vida de alvoroço.
Ela é minha Estela,
Mordendo o meu pescoço.
Nunca fui muito bonzinho,
Brincando com o seu corpo.
Deitado em berço esplêndido,
Te amando até o osso.


Perdido

Abro os olhos,
Com Maria.
O coração dispara.
Menina voluptuosa,
Acorda sorrindo para mim,
Com seus olhos azul céu,
Seus lábios negro asfalto,
Seus dentes de paralelepípedos,
E sua pele friorenta.
Essa é minha Maria,
Essa é Maria Sargeta.


Nascido das trevas

Mundana, insana,
Sem pano algum no corpo,
Seguindo, chorando,
Sem pudor algum no rosto,
gozando, sangrando,
Ela geme em alvoroço.

Foi um dia tão inocente,
Menina, criança, gente.
Hoje, amante gentil,
Vampira, leoa, serpente.
Veio revirar meu mundo,
Obliquo, a nada inerente.

Mostrei a ela o caminho,
A trilha pagã da salvação.
Tomei dela a pureza,
Sorrindo e gemendo uma cação.
Que os demônios de nosso belo cosmo,
Abençoem essa prevaricação.

O ventre dela preenchido,
Completa a nossa crucificação.
Nasceria daí um rebento,
Ânsia da vida e da incompreensão.
Ela foi virgem, pura menina,
E ressuscitada como Dragão.


Apocalipse

O carpinteiro trabalhava
Curvas indeterminadas.
Uma amante de madeira
Com seios e alma talhada.
Mas a plasmação da noiva,
O univerço tolia.
Eram formas idealizadas,
Por uma vida atormentada.
Então em acesso de fúria,
Ele cedeu marteladas truncadas,
A a estátua futura,
Chorou pela face lascada.

Quebrou-se deixando a sombra,
De uma beleza esmerada.
E fez para todos a falta,
de uma existencia encerrada,
Cuja presença não esteve,
em nós jamais aclarada.
Cerragens de realidade,
Em uma iluzão revelada.


Capelo

Vôo com minhas asas,
Asas que Deus me deu.
Vôo com minhas asas,
No infinito céu.
Inclino, levanto, rodopio,
Com o sol e o seu calor.
Vôo com as asas da alvorada,
Os caminhos de meu mentor.
Vertiginosamente vôo,
Vôo para o amanhã.
Alçando vôo, os sonhos,
Gaivota de esplendor.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Destino Certo

(Luiz Calcagno)

O sol encontra a noite,
No último segundo,
Ele quer beijar a Lua,
Em extase profundo.

Em plena agonia,
A Lua que se põe,
Vê nascer heróico Sol,
Remoto leste que se opõe.

E enquanto ele se parte,
E se vai contra a vontade,
Ela sente pleno em peito,
Dor de fogo que lhe invade.

Ele pinta o horizonte,
o crepúsculo da amada,
E deixa a linha que divide,
A distância encantada.

Ela sempre se transmuta,
Nessa dança do destino,
Cheia, curva, alva, negra,
Ela some em desatino.

Ai do Sol viver a Lua,
Pobre Lua que quer Sol,
Dois amantes, um umbral,
Se fitando em caracol.

Corpo e alma, eternamente,
Esse duplo é admirável,
Se fizessem minha'vontade:
Beijo pleno e incansável,

Nasceria então o filho,
Que o destino desejou.
O seu leito seria a nuvem,
Fecunda estrela do amor.

II
Dente de Leão
(Ao meu amigo Denny)

A vida é dente de leão.
Que parte carne,
Que rói músculo,
Que corta a respiração.

Osso canino atroz,
Faca sagaz afiada,
Conjunto de presas mortais,
Que ceifa a vida veloz.

A vida é dente de leão.
Suave, brando, delicado.
Eu toco, eu ergo, eu sopro,
Ele se desfaz em imensidão.

A vida é dente de leão.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quase uma erupção vulcânica

Ela tinha cólicas. Ele passou o olho pelo site, clicou em cidades, correu brevemente pelas notícias subindo e descendo a tela. Ela colocou o absorvente na calcinha e se vestiu. Ele minimizou a janela e entrou novamente no bloco de notas. Um helicóptero passou do lado de fora. Parecia próximo. Uma sirene na rua. Ele colocou os dedos sobre o teclado e olhou para a tela como quem olha para um papel em branco. Iniciou mais uma história. Apagou tudo. Ela saiu do banheiro e acendeu a luz do quarto. O sutiã estava sobre a cama. Ela o vestiu e colocou uma blusa. o quarto era iluminado pelo banheiro. Ela apagou a luz e ficou no escuro. O apartamento parecia completamente vazio. O prédio parecia completamente vazio. As ruas pareciam completamente vazias. A cidade parecia completamente vazia. O estado parecia completamente vazio. O país parecia completamente vazio. A Terra parecia completamente vazia. A mente de Buda. Marte! Uma supernova nos confins do universo. Ele começou a escrever uma poesia. Olhou pela janela. As luzes apagadas. Somente o computador iluminava o escritório. Os braços magros contorciam complexos nervos que em um sistema quase perfeito forjado pelo próprio acaso fazia com que os dedos transmitissem ao computador a mensagem que o cérebro enviava. "Se eu fosse Peter Pan". "Cinquenta cents e uma pá". "A impiedade da rocha". "A fragilidade do coração". Deleteeeeeeeee... Tudo de novo. Passos na escada. Uma fresta de luz por baixo da porta. Uma fechadura. Escuridão. Batida. Ela saiu. Ele ficou escrevendo. Começou novamente. O elevador soou. Lá fora tudo era claro. O próprio destino era claro. Era luta. Era vontade. Ele levantou-se. Seu lóbulo direito doía. Períodos curtos, era o que o editor havia falado. Tudo tão simples quanto um grunhido. E quando tivesse tudo ao alcance, não teria nada. Ele endireitou-se na cadeira. Pensou em beber. Pior que beber e dirigir é beber e escrever. Homens das cavernas. Lembrou-se. Neandertais. Seu coração batia forte, acelerado. Um trem de carga. Um vagabundo iluminado. Um trem de feno. Cowboys atiram para o alto. Correm em seus cavalos. Uma aventura galáctica no velho-oeste. Tudo é galáctico para quem vive aqui. Moramos na Via Láctea. Na via do leite da vaca cósmica, que escorre. Uma viagem de bilhões de anos na velocidade da Luz. O plano de Deus, a evolução, e só. Sem pernas decepadas, tetraplergia e mães e irmãos assassinados. Tudo isso é culpa deles. Dos homens. Deus só tem um plano: e-v-o-l-u-ç-ã-o. Darwin é meu pastor... As letras vão surgindo novamente. Será que a alma que comanda océrebro, que comanda o braço, que comanda as teclas, que comanda a CPU, que comanda os elétrons do monitor, será que a mente que comanda os elétrons acertou dessa vez? Não. Uma página inteira deletada. O tempo é relativo. Ele riu. Piadas de redação. Escândalos políticos. Estava cada vez mais medíocre. Escrevia cada vez pior. Cada vez menos. Mas acreditava em si. Em nome do parlamento. Que caia uma bomba atômica sobre a Câmara Legislattiva se o narrador estiver mentindo. Era uma erupção vulcânica. Sem precisão. Ele começou novamente. O celular tocou. Ela estava no banco de trás do taxi. Liguei para me despedir. Não quis atrapalhar. Ele digitou aquelas palavras em silêncio. The Song Remains The Same - 5:30. Como está o trabalho? Médio. Estou no prazo. Que horas você volta? Não sei. "TIGER, tiger, burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry? In what distant deeps or skies Burnt the fire of thine eyes? On what wings dare he aspire? What the hand dare seize the fire?"(Blake). Você está sempre no prazo. Eles riram. O coração estava cheio. Um beijo longo em algum dia de um passado recente. A terra tremeu e engoliu as vidas. Um coração partido. Mil corações partidos. Cem mil corações partidos. Dedos, brita e concreto. Concreto demais. O que está acontecendo com o mundo, que nada acontece? Você pensa demais. preciso continuar isso aqui. Está no meio do texto? Nem no começo. Mas tive uma idéia. Aproveite. Aproveite. Amo você. Idem. Beijo. Beijo. Tudo estava quente e bom. O mundo é muito grande. Ele começou novamente. Over The Hills And Far Away - 4:50. Os dedos vacilaram novamente. Será que deveria voltar a algo antigo? ainda não. Venceria? Sim. Ainda não. Um suspiro antes da queda. Um mergulho. Suicídio. assassinato. Palavras, palavras, apenas palavras. Palavras o suficiente para encher um grosso periódico diário. Meio de comunicação. M-e-i-o-d-e-c-o-m-u-n-i-c-a-ç-ã-o. Um meio para se comunicar. O ar. Muitas vezes, o ruído é a própria alma. Como dizer tudo? Não havia verdade nas notícias. Eram muitas mortes, muita tragédia, muita gente, fezes demais. Morte, Peste, Guerra, Fome. Foco, concentração. Poesia. Beirut, Irã, Luanda, Angola, Haiti. Eles compravam navios negreiros e então libertavam os negros. A primeira nação livre da América. Será que uma poesia...? Não. Nada de poesias. Apenas silêncio. Os dedos corriam alucinados como cavalos de corrida. As letras surgiam istantâneas na tela. Frururururururu. Frurururuurur. Frururururururuur... A testa franzia. Expressões subconscientes. Um milênio de silêncio. Adeus. Ele desligou o monitor. Ela desceu do carro. Ele acendeu a luz da sala. Voltou ao escritório, aumentou o som e pegou o texto na impressora. Pronto. Uma merda. mas dava para enganar. Ao menos até a próxima semana. Serviria, gostariam, estava melhor do que imaginava. Pensando bem, não era tão mal assim. Uma garrafa de suco de laranja. Gomos corriam pela garganta. Frescor e cheiro do vitamina C. Um barulho de fechadura. Você voltou, tão cedo?! The Ocean - 4:31. Ela sorriu, deixou a bolsa no sofá. Ela o abraçou. Eles se beijaram. Aquele alento. Me faça parar de tremer... Não.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Com a mão nos olhos

O moço mudou de posição. Cansado da leitura sem óculos, e havia perdido seus óculos, levantou-se. Sua pele branca ficou marcada de vermelho pelas dobras dos músculos, da gordura e do lençol. Jogou o livro em cima do jornal, no chão. Olhou novamente para o caos do pequeno quarto alugado em busca das lentes, que não estavam de fato lá. Olhou para o porta-retrato com entes amados. A palavra “ente” é apropriada no caso. Não interessa aos leitores, por não ser mesmo do bico deles, saber quem sorria na imagem. O moço passou a mão nos olhos. Levantou a persiana. Queria iluminar a pequena toca enquanto ainda durasse o sol, e sentir a escuridão e o frio da noite, e só depois utilizar-se dos benefícios da vida moderna. Mas não resistiu, ligou o som. A imagem do menino morto no caixão o assombrava. O menino cinza-pálido no caixão, ceifado por um caminhoneiro alcoólatra que invadiu a faixa contrária. O caixão branco, as vestes brancas, as flores brancas, cercadas do negro-luto de nossa cultura. Ele afastava a imagem, que voltava. E por vezes a face do jovenzinho, que se tornara como um boneco feio em seu rigor-mortis, era substituída pela do filho de sua namorada, criança que ele tanto amava. E aquilo o estremecia. Era suficiente para encher seus olhos de lágrimas e seu coração de horror, e comungar com a dor daquela família que aquele agente da polícia civil acompanhou tão breve e marcantemente. Morreram a mãe, o pequenino, o primo do pequenino, e tia do pequenino. Sobreviveram o pai e a avó, sogra do homem, se é que pode-se dizer, em um caso duro como esse, que de fato sobreviveram. Eles mesmos diziam que não, que não haviam sobrevivido. E o pai, como qualquer cidadão mediano pode constatar, não sobrevivera, embora guardasse vida e consciência em seu corpo cada vez mais curvado e magro. As coisas sempre voltam em uma bagunça. Se perde uma caneta especial, e se ela está lá, logo se a encontra. O mesmo com uma jóia de família. O mesmo até com os sentimentos. Bem sabemos. Na confusão da alma, aquela velha paixão, aquele rancor, aquela alegria cândida e breve, sempre emergem e imergem. Se não aparecem, se não há um remorso ou um orgulho, é porque nunca estiveram lá, como os óculos perdidos. Mas você não perde uma mesa ou uma geladeira. Alguns traumas são como verdadeiras máquinas de lavar nas almas. O moço tomou um banho, trocou de roupa, arrumou um pouco a bagunça. Preparou-se para sair a noite. Também lhe vinha a mente a boca escancarada daquele outro homem que morreu com um tiro no peito e ficou com a cabeça pendendo para trás na cadeira. A bocarra escancarada com todos os dentes à mostra, e a roupa bonita de executivo, e as inúmeras moscas que entravam e saiam da goela seca, a face dura do pequeno em seu caixão, o tórax imóvel do atropelado, que imóvel fica estranho, como se estivesse torto mesmo sem estar, aqueles fantasmas que assombravam aquele homem sozinho em casa, ficavam o tempo todo fazendo-o pensar no medo dos medos que mais o assombrava por ele perceber que existia, o medo da farsa, da grande farsa conspiratória que ele mesmo era. Braços e pernas partidos, corações parados, cérebros como apenas medidas de quilo. Esse medo não é exclusivo. Todos têm, mas nem todos o percebem ou o reconhecem. Ele olhava para a arma no coldre, no cabide com o casaco, ao lado da porta do quarto, e sabia que tudo era uma grande farsa, e ele de alguma forma amava profundamente a farsa, mas por ser farsa, a odiava com a mesma loucura dos amantes traídos, que morrem de ciúmes e imaginam dores e assassinatos. As vezes até o executam. Um carro, um computador, uma banda larga, o direito de votar, o direito de falar e o de ficar calado, a presidência da república, o senhor ministro do comércio exterior, o doutor delegado que de doutor tinha tanto quanto um médico, isto é, nada, a morte a caminho de casa, os encontros e partidas, os portos, as constituições, os sistemas políticos, o parlamento e todos os sujos, e não há exceções, parlamentares demagogos, os capitalistas, os comunistas, os religiosos e suas religiões mortas-vivas, mais mortas que aquele ex-pai que nunca deixará, para sua infelicidade, de ser pai de um menino morto enquanto ele mesmo guiava o carro, o vômito na sarjeta, a sarjeta, a energia elétrica e as cirurgias bem sucedidas, toda aquela merda imunda, aquela grande bosta de mundo, que é este mesmo em que nos sentamos para navegar em um espaço informativo que também não existe, tudo isto que rodeava o agente, tudo uma farsa mentirosa, uma grande farsa, farsa, farsa, farsa. Mais vivos estão os que morreram e, como diz o sábio ditado, sabe-se lá proferido pela primeira vez por que ditador, o pior cego é aquele que não quer ver. Tudo uma grande farsa, com marketing, publicidade, mídia espontânea e muito neon. Nada que uma bala bem enfiada na cabeça não aclare as coisas. Nada que uma batida a caminho do trabalho ou de um encontro, ou na volta para casa, que um atropelamento, que um câncer maligno ou infarto fulminante não resolva. O agente olhou ao seu redor, tão vazio quanto cheio, com a alma em bagunça como qualquer um, tomou seus medicamentos, pegou a chave do carro e partiu. Sabia bem do que precisava. Tudo que precisava era de uns anos na cadeia com a bandidagem que ele ajudou a prender, aprendendo, um processo que resultasse numa demissão e num arraso financeiro tão grande, que, menos que a morte, só o restasse recomeçar, para que começasse verdade. Mas era um momento ínfimo aquele. Ele pegou os documentos e a chave do carro e foi comemorar o natal. Para adiantar a história e não nutrir expectativa quanto ao fim, adiantamos que ele foi, voltou, dormiu, trabalhou na delegacia e tudo o que manda o figurino roto e mal bolado da vida moderna. Menos casar-se. Isso não dava. Preferia amar em silêncio sua namorada e o menino, filho dela. Mas foi com insegurança. Sentia que poderia vacilar e bater o carro, e matar alguém, ou morrer, e que não tinha garantia de nada. Sentia que alguém poderia fazer o mesmo e matá-lo. Sentia que poderia ele mesmo dar cabo de sua existência com um tiro fácil, com uma overdose de alguma coisa, ou matar alguém. Matar quem mais amasse, para eternizá-lo, fosse seu irmão, sua mãe, sua mulher ou o menino que era seu protegido. Sentia tudo. Era transparente, por isso não era tão mal refletir a mentira, já que ele mesmo não era a mentira. E graças ao surdo Deus, se é que esse velho sacana anda mesmo por aí, ninguém de fato é a mentira. Uma pena que generalizações limitam e tornam-se elas mesmas mentiras em um mundo tão amplo. Mas ele sentia, nisso, um alento. Sensível a tudo, como o verdadeiro guerreiro, por mais que lhe doesse tanto ser quem fosse e uma farsa como qualquer outro ser humano o é, ao menos sentia a vacilante certeza de tentar ser puro, fosse como fosse. É claro que um raio ou um avião, um carro bomba, um atentado, uma queda burra na calçada poderiam matá-lo, mas foda-se. Ia viver. Viver e pronto. Custasse o que custasse. Sempre perguntaria à morte: “se fosse morrer agora, é aqui que eu queria estar?”, e ela sorriria, e ele saberia que se a resposta fosse “sim”, ele estaria bem, e se fosse “não”, ao menos saberia que precisava mudar de lugar ou de vontade. E ele mesmo acendeu o pavio da vela do bolo da irmã adotiva de sua prima, que fazia anos no dia 25, e era a mulher que ele verdadeiramente amava, e não a sua namorada. Era natal e não importava. Que coisa...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Ciclo de leituras

Então Tudor, paramentado com sua armadura, suas armas de guerreiro, sua capa e sua touca de cabeça de urso mágica, exausto após ter tomado a água do Rio do Esquecimento, adormeceu profundamente, sem perceber que ao seu redor todas as árvores e flores e frutos da floresta mudavam de lugar.

Por isso a floresta era chamada de Trilha da Perdição. Para sair de lá eram precisos vários dias, e era preciso dormir para descansar. Ficaria o jovem perdido eternamente entre as belas e mortais folhagens tropicais? Haveria uma saída? Ele voltaria a ver sua querida Bô-Bô e seu amado irmão Ishtar? Isso é o que veremos no próximo capítulo...

Não! Eu quero ouvir mais! Eu sei que você quer ouvir mais, mas agora é hora de dormir. Mas eu não estou com sono. Você precisa dormir para ficar forte de novo. Não quero! Dorme, filinho. Papai está cansado também. Mamãe já está dormindo. Amanhã o médico vem aqui e vai dizer se você já pode levantar e voltar a brincar na rua como os outros meninos, e mais tarde a tia Eulália, amiga do papai e da mamãe vem aqui com a Fauna e vamos jantar pato. Dorme que o tempo passa mais rápido. Vai ser um longo dia... Ta bom então (bocejo). Boa noite, papai... Amanhã me conta mais da história? Prometo. Vamos descobrir como Tudor conseguiu escapar da floresta terrível! Agora durma (beijinho). Prometo que quando estiver bom vamos acampar e jogar bete até o dia raiar.

Então o pequeno Zéfiro, sentindo o pulmão pesado como sempre e o coração leve como nunca, adormeceu com sua pedra verde da sorte entre os dedos. Mas sem que ele percebesse, todas as árvores ao seu redor também mudaram de lugar, e o mundo se transformou. Quando ele abriu os olhos, estava em uma terra distante e feliz, cheia de aventura, com outros meninos como ele, e até a pequena Bô-bô estava ao seu lado. Lá eles brincavam, se aventuravam e corriam por fontes e abismos. Todos os dias eram felizes como aniversários e ele nunca mais crescera.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Querida Louanne,

Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! voar!...
(Pássaro Cativo - Olavo Bilac)

Escrevo-lhe esta carta porque esta manhã me olhei no espelho do banheiro e vi, no reflexo, no criado mudo de minha mãe, um livro cuja personagem principal leva seu nome. É um livro de magia e realidade destes que nos inspiram a agir mais impulsivamente, sem levar em conta paradigmas sociais que tanto nos emperram. Um livro que te segura pelos braços, olha bem dentro de seus olhos e diz: “um copo é só um copo”. Essa é uma carta de amor e amizade. Quando vi o livro, ele me remeteu à história, quando me lembrei da história, já nebulosa em minha mente febril, me lembrei da encantadora protagonista, e quando pensei nela, associei os nomes, e pensei em suas mentiras Louanne, em suas agraciadas mentiras que me fazem sonhar até hoje. Diante do espelho meu rosto se partiu. Não porque o vidro estivesse quebrado ou trincasse em resposta as meus sentimentos. Meu rosto se partiu. Meus olhos choraram e meus lábios sorriram. Foi isso que aconteceu. Ajustei a gravata. Me disfarço bem de “cidadão”. Seu nome e sorriso palpitaram em meu peito. Continuei simulando uma vida como faço todos os dias. Você não está em Brasília, está longe, casada, talvez feliz. Não sei se você simula uma vida também, mas não duvidaria disso. No entanto sou obrigado a dizer que nossas velhas mentiras eram bem mais reais que a vida que levo hoje. Isso não é exatamente triste. Apesar das falsidades temos momentos de felicidade por aqui. De todos que conheci levei algum sonho comigo. Ir à Lua, ir à Roma, fazer a cama na varanda, voltar para a França, pilotar um avião, pilotar um carro de Fórmula 1, fazer cinema, virar ator, aprender violino, satisfazer uma paixão arrebatadora, voar de asa-delta, pular de pára-quedas, dar a volta ao mundo, ter um amor impossível, passear de submarino e até fazer amor em Chernobyl... Milhares de coisas que vivem como ecos em meu ser, e que, como um mosaico, me ajudam a compor meus próprios sonhos. Afinal, sonhos são feitos de sonhos e só assim eles podem se tornar reais um dia. Só você é que nunca me contou o que sonhava, e me obrigou a sonhar que sonhava seu sonho para compor o meu. Cativo estive todos esses anos desse misterioso sonho que sonho que sonhas quando sonho, como o pássaro de Olavo Bilac. Quero voar. Quando partiu você me disse que eu estava atrasado em concretizar meus sonhos. Estava certa, Louanne. Desde então, cada verdade, cada mentira, cada manhã, cada gota de suor, por mais avessa que possa parecer às idéias com que sonho, são todos voltados unicamente para essas idéias. Se fosse morrer agora você gostaria de estar aonde? Me lembro que me perguntou isso. Devolvo a questão. Hoje sei que a resposta deveria ser sempre “aqui”. Qualquer resposta contrária nos permite levar a crer que o inquirido é categoricamente infeliz. Quero ao cair da tarde cantar tristíssimas cantigas. Te entreguei meus sonhos. Você, ao menos você, levou meus sonhos. Minha Louanne sei que estamos distantes em espaço e sentimentos hoje, mas te convoco em meu coração. Vamos viver o mito. Mais que morrer, viver por uma idéia, por um sonho, seja o sonho que for. Tens coragem? Será que hoje sou eu quem dança e sorri, e que você deixou-se esfriar pelas convenções? O mundo esta mudando. Está na economia, na política, na ética, na ciência, na religião, na filosofia... Não quero ter meus pés presos no concreto. A maré está subindo. Está subindo e busco avidamente por um conhecimento, um segredo Louanne. Um segredo que é o ato de ter teus lábios sussurrando em meus ouvidos, ou de alcançar o topo de uma montanha no fim da tarde. Um vídeo rápido sobre coisas ternas, simples e desconexas, uma música desafinada tocada por uma harpa, uma verdade que não está na razão e não está na irracionalidade, as batidas do coração, um sapo, um girino, uma árvore, uma estação do ano. Não sei teu endereço. Quando me abandonaste pela primeira vez escrevi um texto que nunca te mostrei, “À Louanne”. Nele eu saia pelo mundo buscando por você, e deixava um recado para que me esperasse se você voltasse antes de mim. Agora saio em busca novamente. Não há linha reta, não há alguém, apenas um sonho indizível perdido em um mundo exponencial. Louanne, você está dentro de mim.



Com amor,

Do sempre, sempre seu, Edgar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Perfis Indispensáveis (Garota Índie)

“It must be the colors” Ola! Meu nome é Selene, igual ao da deusa grega, meus avós paternos eram japoneses, meu pai é arquiteto, minha mãe é filha de brasileiros mesmo, tenho 17 anos, peso 50 kg e sou Áries com ascendente Virgem e Lua em Aquário. “And the kids” Me ligo nessas coisas de horóscopo, astrologia e tal, gosto de astronomia também, adoro tocar violão, ir ao cinema ver filmes de romance e comer doce. Tenho 1,5 metros, sou espevitada, brincalhona, gosto de dançar, não tenho medo de cair no chão, minha voz e minha risada são engraçadas e me divirto pra caramba todos os dias! “That keep me alive” Bebo um pouco de vez em quando, mas só com amigos, não fumo, não curto drogas, não gosto de boates, não gosto de som muito alto, a não ser que seja Cat Power, não gosto de tirar notas baixas, gosto de explicar física e matemática e detesto ser taxada de CdF. “'Cause the music is boring me to death” Detesto celular, detesto quando o celular toca, detesto, detesto e detesto. “It must just be the colors” Minha mãe é taguatinguense, artista plástica, filha de pioneiros que vieram para o Planalto Central construir Brasília. “And the kids that keep me alive” Me amarro muito na história da minha família porque pra todo lado tem um rabo, uma ponta de fio de novelo que posso ir desenrolando. “'Cause I wanna go ride away” Só vi meu avô paterno uma vez e minha avó já tinha morrido nessa época. “To a January night” Eu era muito nova. Não me lembro. “Built a shack with an old friend” Me lembro que ele se chamava Takeshi e era agricultor e cultivava morangos na área rural de Brazlândia (lembro dele quando ouço aquela dos Beatles – a maior banda de todos os tempos). “He was someone I could learn from” Lá tem muitos japoneses. “Someone I could become” Meu pai não manteve o contato com eles. “Will you meet me down” Na verdade somos muito ocidentalizados, mas ele conhece a história da família todinha e tem gente que foi até samurai (iá!). Meus avós maternos vieram do ceará. Também não conheci minha avó, mas meu avó era um homem forte, trabalhador, paciente e com um sorriso sereno no rosto. “On a sandy beach” Morreu quando eu tinha 11 e demorei muito para entender. Foi o primeiro ente querido que perdi (digamos assim, conscientemente). “We can roll up our jeans” Tem fotos com Juscelino, sete filhos, tios legais, todos homens exceto minha mommy, primos gatos, foi neles que aprendi a beijar (Yes!), sou bochechuda, tenho olhos puxados (como era de se esperar), cabelo preto com mechas vermelhas na frente (não, não me arrependo de ser poser), e aprendi a viajar pra longe, curtir a cachoeira e transar tudo de uma só vez com meu urso amarelo que é meu primeiro namorado mesmo. “So the tide won't get us below the knees” Já beijei outros caras do ensino médio e espatifei meu coração mole no primeiro ano. “Yellow hair” O nojento é que coisas moles não quebram, então ficam cheias de sangue e amassadas, igual a um gatinho atropelado por um caminhão. “You are a funny bear” Se fosse duro, eu varria e jogava fora. Me amarro em Simpsons. “Yellow hair” Tem uma cena que a garota arranca o coração do Bart e joga na lixeira e diz: “você não precisa mais disso”. Ri horrores. “You are such a funny bear” Tenho um gato chamado Marco Antônio, me visto de um jeito que eu goste, e não me preocupo muito em ser brega ou cafona, mas não uso camisetas com mensagens rock’n roll (de poser já basta as mechas). “Slender fingers" Quem não gosta de Raul? Eu gosto (e de Velhas Virgens também). “Would hold me slender limbs would hold me” Adoro roxo, adoro preto, adoro vermelho, adoro pedrinhas coloridas e artesanatos bacanas e quero fazer sociologia, ou antropologia, ou música, ou artes plásticas, ou letras, acho. “And you could say my name” Meu urso amarelo é grande, joga basquete, tem olhar engraçado, fala desajeitado e me carrega no colo toda vez que me encontra. “Like you knew my name” Não tenho medo. Na minha primeira vez estávamos acampados em um lugar chamado Macaquinho, na Chapada dos Veadeiros. Era noite, bebemos vinho, eu estava no início da menstruação, ficamos loucos ele subiu em cima de mim, me apertou no colchonete, me deixei levar, senti um pouco de dor e depois delirei e fui até as estrelas, onde haviam vários anjinhos sorridentes debruçados em nuvens que eram como janelas do paraíso (igual ao Homer quando dorme no volante – isso foi uma analogia ruim). “I could stay here” Sei que somos todos burros, não sabemos de nada e ainda vamos sofrer um bocado. “Become someone different” Eu vou, tu vais, ele vai, nós vamos, etc e etc... Não posso fazer muito a respeito. No geral me resigno e sou feliz. “I could stay here” Mas ler jornal as vezes me chateia muito (na internet, no papel ou na TV, tanto faz). “Become someone better” Fui presidente do comitê infantil taguatinguense de ajuda às vítimas do tsunami (chique!) e participei de três ONG’s com minha mãe, duas ambientais e uma contra a pobreza no Brasil e no mundo (naverdade não fiz muita coisa, só participei mesmo). “It's so hard to go in the city” Não tenho peitões americanos, bundinha de verão, pernas de Claudia Raia. “'Cause you wanna say hello to everybody” Não se iluda com as letras gentis e generosas. “It's so hard to go into the city” Sou pequenininha, feia, mas adoro depilar meus cambitos. Dei aula de geografia para crianças carentes e aprendi artes circenses com a molecada (foi meio que uma troca). “'Cause you wanna say hey I love you to everybody” Sei que toda a vida legal de classe média que levo é um frágil paradigma (adoro essa palavra), estou terminando de escrever uma poesia e vou me encontrar com o Ted-Bear daqui a pouco. “When we were teenagers we wanted to be the sky” Já mencionei que nos conhecemos de verdade no inglês? “Now all we wanna do is go to red places” Éramos da mesma turma na educação física e no inglês, mas eu sou uma negação em esportes e ele uma negação em inglês, e aí nos ajudamos mutuamente, descobrimos músicas e um monte de coisas em comum e incomuns, e pimba(!), era uma vez na América. “And try to stay outta hell” Vamos tocar violão, caminhar na Esplanada e dar uns amassos na Ermida Dom Bosco. “It must be the colors” Se você não é do DF, não faz idéia do que está perdendo. “And the kids” O fds promete e por hoje é só, pessoal! “That keep me alive” Beijos... “'Cause the music is boring me to death”

PS: Não esquecer de levar o gravador e o violão! “it must just be the colors”

(…) “And it must just be the kids”
“That keep me alive on this January night.”
“Yellow hair”
“You are a funny bear”
“Yellow hair”
“You are such a funny bear” (!)

Selene Arruda Myura =P

*Colors And The Kids (Cat Power)