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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Eu não existo

"O Sertão vai virar mar,
e o mar, sim, depois
de encharcar as mais
estreitas veredas,
virará sertão"

Antônio Conselheiro


Quando entrei no quarto de meu avô, o enigmático senhor Flory, naquela hora da madrugada, senti exatamente o mesmo cheiro que sentia quando criança, ao entrar na casa velha de Lavras, no sul de Minas Gerais. Todas aquelas madeiras antigas e rijas, recobertas de pó. O cheiro emanava da cama de meu falecido avô, e da cadeira quebrada encostada ao lado do estrado, que também estava encostado na parede. O plástico velho do assento se dobrava à fragilidade das juntas quebradas. Sentei nela aos três anos e eram fortes como um jovem à época, mas não resistiram aos solavancos e meu crescimento e do meu irmão, e do meu outro irmão, e do outro, e do outro, e do outro. Tudo aquilo me lembrava a cidade natal de meu pai. O quarto cheirava a alguma coisa que só então reconheci. Era o mesmo cheiro que Aureliano Babilônia deve ter sentido ao ler as últimas páginas dos pergaminhos de Melquíades, pouco antes da cidade dos espelhos, ou das miragens, ser varrida pelo vento. Era exatamente o cheiro da ventania que leva tudo o que existe e que se transforma em pó. Aquele era o cheiro da passagem do tempo, e nunca me dei conta. Literalmente debaixo do meu nariz. Ai de mim, que queria ser Peter Pan, que queria voar, lutar contra piratas, beijar Wendy e não envelhecer nunca, enigmático senhor Flory. Quando eu nasci você já era velho. Parece, em minha existência, sempre ter sido velho. As histórias da sua juventude remontam a Força Aérea Brasileira nos meados da Segunda Guerra Mundial. A mim, dessa triste batalha, só restam livros de histórias e relíquias de museus. Em contrapartida você nos deixou móveis antigos e uma folha de jornal. Meu avô é a Segunda Guerra Mundial. Brasileiros versus fascistas. Naquela hora olhei para os lençóis dependurados no varal do lado de fora, iluminados pela luz que fugia da janela, e imaginei um fantasma ou uma criatura maligna e bela entre os panos, me observando sem que eu pudesse percebê-la. Ninguém acredita, mas ela está mesmo lá. O véu sempre esconde a verdade. O véu da personalidade, o véu do tempo, o véu da noiva, o véu de Isis. Então caminhei apressado. Não mais que quatro passos para sair daquele quarto vazio que outrora, antes da queda do enigmático senhor Flory, era quase que como um templo, onde eu, neófito da vida, acólito da inexperiência, só entrava se autorizado, e mesmo assim, em silêncio, e não me demorava, padrinho. Estava tomado pela angústia. O sono não me vinha. Sentia vontade de fumar, de caminhar pela rua, de me transformar em um fantasma. Subia e descia as escadas. Enigmático senhor Flory, o senhor se deitou sem permissão. Ainda me lembro que meus lábios tocaram os seus e soprei meu alento para dentro de seu peito, imaginando que isso pudesse te trazer de volta. Ainda ouvi um gemido ao pressionar teu tórax em busca das batidas de teu coração, como quem cava à procura de um tesouro. Coisa que nunca contei a ninguém. Seria apenas um reflexo físico do ar que fugia de teus pulmões mortos mas, mesmo assim, pensei que fosse voltar comigo. Desde então o furacão voltou a ficar forte, e forte, e forte, e só agora começo a compreender que a tempestade que arrasa minha vida é esta mesma do Tempo, que vem soprando, matando e pulverizando tudo, cada vez mais rápida. Quisera eu ter olhos para todos os livros e imaginação para todos os contos. Mas sou só um homem atrasado que anda pela vida. Cheguei atrasado. Quase um mês depois do previsto, acho. O velho era o homem que sempre fora velho. Pena nunca ter alcançado suas manifestações, nunca ter subido alto o suficiente para ver, ainda que de longe, a luz dos seus pensamentos, para que eles iluminassem os meus agora. Um coração bate no meu peito. Tu-tum, tu-tum, tu-tum. O ar entre e sai dos meus pulmões. Meus nervos trabalham incessantemente, 24h por dia. Enigmático senhor Flory, foi assustador te ver deitado no chão, e não em sua cama, com os olhos vazios e esbugalhados, e a boca aberta e sem dentes. Quem esperava? O tempo. A morte. Castañeda sabe que ela está à nossa esquerda, a um braço de distância, esperando o último segundo para tocar nos nossos ombros. Se olharmos de relance e percebermos uma sombra, é ela. Tudo é passageiro, tudo é ventania, tudo é Macondo. Deus, leve-me embora de Macondo. Então chove e chove e chove. Volto à realidade. Sento diante da máquina de escrever e escrevo. A morte, bela e doce, fuma sentada à minha janela. Que pernas. Finalmente fumo um cigarro. Não sei ao certo o que é real e o que não é. Parece que ainda ouço aquelas palavras ao telefone. Giro o disco para chamar alguém. Parece que atravessei a última linha, em silêncio, como o soldado que caminha nas terras inimigas, mas sempre com a fronteira ao alcance da vista, como um navio português que contorna a África a caminho das Índias, sempre com a costa à esquerda. Respiro aliviado. Me sinto mais tranqüilo. Parece. Apenas parece. Enigmático senhor Flory, que sou eu, de onde venho e para onde vou?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quase uma erupção vulcânica

Ela tinha cólicas. Ele passou o olho pelo site, clicou em cidades, correu brevemente pelas notícias subindo e descendo a tela. Ela colocou o absorvente na calcinha e se vestiu. Ele minimizou a janela e entrou novamente no bloco de notas. Um helicóptero passou do lado de fora. Parecia próximo. Uma sirene na rua. Ele colocou os dedos sobre o teclado e olhou para a tela como quem olha para um papel em branco. Iniciou mais uma história. Apagou tudo. Ela saiu do banheiro e acendeu a luz do quarto. O sutiã estava sobre a cama. Ela o vestiu e colocou uma blusa. o quarto era iluminado pelo banheiro. Ela apagou a luz e ficou no escuro. O apartamento parecia completamente vazio. O prédio parecia completamente vazio. As ruas pareciam completamente vazias. A cidade parecia completamente vazia. O estado parecia completamente vazio. O país parecia completamente vazio. A Terra parecia completamente vazia. A mente de Buda. Marte! Uma supernova nos confins do universo. Ele começou a escrever uma poesia. Olhou pela janela. As luzes apagadas. Somente o computador iluminava o escritório. Os braços magros contorciam complexos nervos que em um sistema quase perfeito forjado pelo próprio acaso fazia com que os dedos transmitissem ao computador a mensagem que o cérebro enviava. "Se eu fosse Peter Pan". "Cinquenta cents e uma pá". "A impiedade da rocha". "A fragilidade do coração". Deleteeeeeeeee... Tudo de novo. Passos na escada. Uma fresta de luz por baixo da porta. Uma fechadura. Escuridão. Batida. Ela saiu. Ele ficou escrevendo. Começou novamente. O elevador soou. Lá fora tudo era claro. O próprio destino era claro. Era luta. Era vontade. Ele levantou-se. Seu lóbulo direito doía. Períodos curtos, era o que o editor havia falado. Tudo tão simples quanto um grunhido. E quando tivesse tudo ao alcance, não teria nada. Ele endireitou-se na cadeira. Pensou em beber. Pior que beber e dirigir é beber e escrever. Homens das cavernas. Lembrou-se. Neandertais. Seu coração batia forte, acelerado. Um trem de carga. Um vagabundo iluminado. Um trem de feno. Cowboys atiram para o alto. Correm em seus cavalos. Uma aventura galáctica no velho-oeste. Tudo é galáctico para quem vive aqui. Moramos na Via Láctea. Na via do leite da vaca cósmica, que escorre. Uma viagem de bilhões de anos na velocidade da Luz. O plano de Deus, a evolução, e só. Sem pernas decepadas, tetraplergia e mães e irmãos assassinados. Tudo isso é culpa deles. Dos homens. Deus só tem um plano: e-v-o-l-u-ç-ã-o. Darwin é meu pastor... As letras vão surgindo novamente. Será que a alma que comanda océrebro, que comanda o braço, que comanda as teclas, que comanda a CPU, que comanda os elétrons do monitor, será que a mente que comanda os elétrons acertou dessa vez? Não. Uma página inteira deletada. O tempo é relativo. Ele riu. Piadas de redação. Escândalos políticos. Estava cada vez mais medíocre. Escrevia cada vez pior. Cada vez menos. Mas acreditava em si. Em nome do parlamento. Que caia uma bomba atômica sobre a Câmara Legislattiva se o narrador estiver mentindo. Era uma erupção vulcânica. Sem precisão. Ele começou novamente. O celular tocou. Ela estava no banco de trás do taxi. Liguei para me despedir. Não quis atrapalhar. Ele digitou aquelas palavras em silêncio. The Song Remains The Same - 5:30. Como está o trabalho? Médio. Estou no prazo. Que horas você volta? Não sei. "TIGER, tiger, burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry? In what distant deeps or skies Burnt the fire of thine eyes? On what wings dare he aspire? What the hand dare seize the fire?"(Blake). Você está sempre no prazo. Eles riram. O coração estava cheio. Um beijo longo em algum dia de um passado recente. A terra tremeu e engoliu as vidas. Um coração partido. Mil corações partidos. Cem mil corações partidos. Dedos, brita e concreto. Concreto demais. O que está acontecendo com o mundo, que nada acontece? Você pensa demais. preciso continuar isso aqui. Está no meio do texto? Nem no começo. Mas tive uma idéia. Aproveite. Aproveite. Amo você. Idem. Beijo. Beijo. Tudo estava quente e bom. O mundo é muito grande. Ele começou novamente. Over The Hills And Far Away - 4:50. Os dedos vacilaram novamente. Será que deveria voltar a algo antigo? ainda não. Venceria? Sim. Ainda não. Um suspiro antes da queda. Um mergulho. Suicídio. assassinato. Palavras, palavras, apenas palavras. Palavras o suficiente para encher um grosso periódico diário. Meio de comunicação. M-e-i-o-d-e-c-o-m-u-n-i-c-a-ç-ã-o. Um meio para se comunicar. O ar. Muitas vezes, o ruído é a própria alma. Como dizer tudo? Não havia verdade nas notícias. Eram muitas mortes, muita tragédia, muita gente, fezes demais. Morte, Peste, Guerra, Fome. Foco, concentração. Poesia. Beirut, Irã, Luanda, Angola, Haiti. Eles compravam navios negreiros e então libertavam os negros. A primeira nação livre da América. Será que uma poesia...? Não. Nada de poesias. Apenas silêncio. Os dedos corriam alucinados como cavalos de corrida. As letras surgiam istantâneas na tela. Frururururururu. Frurururuurur. Frururururururuur... A testa franzia. Expressões subconscientes. Um milênio de silêncio. Adeus. Ele desligou o monitor. Ela desceu do carro. Ele acendeu a luz da sala. Voltou ao escritório, aumentou o som e pegou o texto na impressora. Pronto. Uma merda. mas dava para enganar. Ao menos até a próxima semana. Serviria, gostariam, estava melhor do que imaginava. Pensando bem, não era tão mal assim. Uma garrafa de suco de laranja. Gomos corriam pela garganta. Frescor e cheiro do vitamina C. Um barulho de fechadura. Você voltou, tão cedo?! The Ocean - 4:31. Ela sorriu, deixou a bolsa no sofá. Ela o abraçou. Eles se beijaram. Aquele alento. Me faça parar de tremer... Não.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Perfis Indispensáveis (Garota Índie)

“It must be the colors” Ola! Meu nome é Selene, igual ao da deusa grega, meus avós paternos eram japoneses, meu pai é arquiteto, minha mãe é filha de brasileiros mesmo, tenho 17 anos, peso 50 kg e sou Áries com ascendente Virgem e Lua em Aquário. “And the kids” Me ligo nessas coisas de horóscopo, astrologia e tal, gosto de astronomia também, adoro tocar violão, ir ao cinema ver filmes de romance e comer doce. Tenho 1,5 metros, sou espevitada, brincalhona, gosto de dançar, não tenho medo de cair no chão, minha voz e minha risada são engraçadas e me divirto pra caramba todos os dias! “That keep me alive” Bebo um pouco de vez em quando, mas só com amigos, não fumo, não curto drogas, não gosto de boates, não gosto de som muito alto, a não ser que seja Cat Power, não gosto de tirar notas baixas, gosto de explicar física e matemática e detesto ser taxada de CdF. “'Cause the music is boring me to death” Detesto celular, detesto quando o celular toca, detesto, detesto e detesto. “It must just be the colors” Minha mãe é taguatinguense, artista plástica, filha de pioneiros que vieram para o Planalto Central construir Brasília. “And the kids that keep me alive” Me amarro muito na história da minha família porque pra todo lado tem um rabo, uma ponta de fio de novelo que posso ir desenrolando. “'Cause I wanna go ride away” Só vi meu avô paterno uma vez e minha avó já tinha morrido nessa época. “To a January night” Eu era muito nova. Não me lembro. “Built a shack with an old friend” Me lembro que ele se chamava Takeshi e era agricultor e cultivava morangos na área rural de Brazlândia (lembro dele quando ouço aquela dos Beatles – a maior banda de todos os tempos). “He was someone I could learn from” Lá tem muitos japoneses. “Someone I could become” Meu pai não manteve o contato com eles. “Will you meet me down” Na verdade somos muito ocidentalizados, mas ele conhece a história da família todinha e tem gente que foi até samurai (iá!). Meus avós maternos vieram do ceará. Também não conheci minha avó, mas meu avó era um homem forte, trabalhador, paciente e com um sorriso sereno no rosto. “On a sandy beach” Morreu quando eu tinha 11 e demorei muito para entender. Foi o primeiro ente querido que perdi (digamos assim, conscientemente). “We can roll up our jeans” Tem fotos com Juscelino, sete filhos, tios legais, todos homens exceto minha mommy, primos gatos, foi neles que aprendi a beijar (Yes!), sou bochechuda, tenho olhos puxados (como era de se esperar), cabelo preto com mechas vermelhas na frente (não, não me arrependo de ser poser), e aprendi a viajar pra longe, curtir a cachoeira e transar tudo de uma só vez com meu urso amarelo que é meu primeiro namorado mesmo. “So the tide won't get us below the knees” Já beijei outros caras do ensino médio e espatifei meu coração mole no primeiro ano. “Yellow hair” O nojento é que coisas moles não quebram, então ficam cheias de sangue e amassadas, igual a um gatinho atropelado por um caminhão. “You are a funny bear” Se fosse duro, eu varria e jogava fora. Me amarro em Simpsons. “Yellow hair” Tem uma cena que a garota arranca o coração do Bart e joga na lixeira e diz: “você não precisa mais disso”. Ri horrores. “You are such a funny bear” Tenho um gato chamado Marco Antônio, me visto de um jeito que eu goste, e não me preocupo muito em ser brega ou cafona, mas não uso camisetas com mensagens rock’n roll (de poser já basta as mechas). “Slender fingers" Quem não gosta de Raul? Eu gosto (e de Velhas Virgens também). “Would hold me slender limbs would hold me” Adoro roxo, adoro preto, adoro vermelho, adoro pedrinhas coloridas e artesanatos bacanas e quero fazer sociologia, ou antropologia, ou música, ou artes plásticas, ou letras, acho. “And you could say my name” Meu urso amarelo é grande, joga basquete, tem olhar engraçado, fala desajeitado e me carrega no colo toda vez que me encontra. “Like you knew my name” Não tenho medo. Na minha primeira vez estávamos acampados em um lugar chamado Macaquinho, na Chapada dos Veadeiros. Era noite, bebemos vinho, eu estava no início da menstruação, ficamos loucos ele subiu em cima de mim, me apertou no colchonete, me deixei levar, senti um pouco de dor e depois delirei e fui até as estrelas, onde haviam vários anjinhos sorridentes debruçados em nuvens que eram como janelas do paraíso (igual ao Homer quando dorme no volante – isso foi uma analogia ruim). “I could stay here” Sei que somos todos burros, não sabemos de nada e ainda vamos sofrer um bocado. “Become someone different” Eu vou, tu vais, ele vai, nós vamos, etc e etc... Não posso fazer muito a respeito. No geral me resigno e sou feliz. “I could stay here” Mas ler jornal as vezes me chateia muito (na internet, no papel ou na TV, tanto faz). “Become someone better” Fui presidente do comitê infantil taguatinguense de ajuda às vítimas do tsunami (chique!) e participei de três ONG’s com minha mãe, duas ambientais e uma contra a pobreza no Brasil e no mundo (naverdade não fiz muita coisa, só participei mesmo). “It's so hard to go in the city” Não tenho peitões americanos, bundinha de verão, pernas de Claudia Raia. “'Cause you wanna say hello to everybody” Não se iluda com as letras gentis e generosas. “It's so hard to go into the city” Sou pequenininha, feia, mas adoro depilar meus cambitos. Dei aula de geografia para crianças carentes e aprendi artes circenses com a molecada (foi meio que uma troca). “'Cause you wanna say hey I love you to everybody” Sei que toda a vida legal de classe média que levo é um frágil paradigma (adoro essa palavra), estou terminando de escrever uma poesia e vou me encontrar com o Ted-Bear daqui a pouco. “When we were teenagers we wanted to be the sky” Já mencionei que nos conhecemos de verdade no inglês? “Now all we wanna do is go to red places” Éramos da mesma turma na educação física e no inglês, mas eu sou uma negação em esportes e ele uma negação em inglês, e aí nos ajudamos mutuamente, descobrimos músicas e um monte de coisas em comum e incomuns, e pimba(!), era uma vez na América. “And try to stay outta hell” Vamos tocar violão, caminhar na Esplanada e dar uns amassos na Ermida Dom Bosco. “It must be the colors” Se você não é do DF, não faz idéia do que está perdendo. “And the kids” O fds promete e por hoje é só, pessoal! “That keep me alive” Beijos... “'Cause the music is boring me to death”

PS: Não esquecer de levar o gravador e o violão! “it must just be the colors”

(…) “And it must just be the kids”
“That keep me alive on this January night.”
“Yellow hair”
“You are a funny bear”
“Yellow hair”
“You are such a funny bear” (!)

Selene Arruda Myura =P

*Colors And The Kids (Cat Power)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Brasília é um labirinto

No sé dónde está. Obrigada.Oi! Hernandes! ... passou por aqui? Como? O Lucas? No. Brigada... Oi, viu o Ramon Lucas? Ramon? É! No. Valeu! Oi! Viu o Ramon por aí? Não. Marcela! Oi? Tô vazando. O que? Tô indo, o Ramon... Vai lá gata! Acha teu homem. O que deu nele? Sei lá. Tô aflita... Você sabe que ele é de lua... Tava estranho hoje... Vai lá gata, qualquer coisa liga. Beijos. Beijo! Caralho! Ramon Lucas de Santa Maria, cadê você? Oi! Até logo... Oi Rafa! Oi querida, já tá indo? Já. Só vim por causa do Ramon. Ele tá aí? Não. Tô procurando ele, ficando maluca. Liga não, daqui a pouco ele aparece. Homem é foda! Obrigado pela parte que me toca. Você não... Você é um doce. Obrigado, amiga... Não quer entrar? Espera ele lá comigo. Não, está muito barulho. Tá me escondendo alguma coisa... Você não é preocupada assim... Depois a gente conversa, gato. Cuidado, linda... Brasília está uma loucura. Ó o celular! Deve ser ele... Não, é a irmã dele... Beijo! Alô! ¿Hola, Maria? Oi Jô! María, ¿has visto a Ramón? Não. Tô atrás dele. Ele ligou? No. Ramón no responde el telefono! Eu sei. Também estou preocupada. Si encuentra Ramón, llámame, por favor! Claro, fica tranqüila... Não deve ser nada. Espero que no. Te ligo. Gracias, Maria. Besos. Beijo, meu amor... Puta que me pariu... Onde você foi se meter? Tá bem cuidado, tia! Vou ficar devendo, querido. Caracas... Merda de carro! Liga, porra. Cadê...? Agenda... Letra “L”... Aqui... Atende, por favor... Alô, Livinha? Oi Má? Oi meu amor, tô atrapalhando? Claro que não. O que foi? Poxa, moça, tô atrás do meu homem. Gata, não vou saber, tô em casa... Ai, amiga, ele sumiu, tava estranho. Tô louca atrás dele. Você está preocupada pelo que eu acho que está? É... Ele viu o seu exame? É, acho... Olha só... Fica calma, acho que posso ajudar. Liga no celular do jornal. Ouvi a Clêide reclamar que o lambe-lambe levou o “telefono” de novo... Ai, Lívia, você é a luz. Te devo uma... Boa sorte, amiga. Vou precisar. Beijo. Beijo! Celular do jornal... Aqui... Ramon? Hola... Ramon! Cadê você, porra? Tô louca atrás de você. Rodei a cidade inteira. Maria... Falei com mil pessoas. Maria, yo queria... Sua irmã está preocupada em casa. Ela está no 8º mês de gravidez, caso não tenha percebido... Maria, escúcha-me... Não! Não escuto! EU NÃO POSSO MOVER MEUS PASSOS POR ESSE ATROZ LABIRINTO!!! Acalme-se Maria! Escúcha-me, por favor! Escúcha-me. Fotografei um niño muerto por balas esta mañana... Ele tinha dez años! Dez años! O que está acontecendo, meu amor? No llores! O que deu em você? Vi um niño muerto, já non te disse!? Onde você está? Na Ermida. Maria... Que? Yo vi su exame sobre la mesa... Preciso hablar con usted... Não, Maria, por favor, no llores. Te encuentro em casa, si? Você vai me abandonar! No, Maria, Te amo. Seremos três, amor, yo, tú e nosso hijo. Só estoy assustado. Solomente... Tô indo pra casa. Beijo. Maria, sua burra, porque não falou com ele antes?! Como sou burra. Merda! Ai... Alô, Jô? Maria? Oi Jô! Falei com o Ramon... Maria, ¿porque lloras, Maria?

terça-feira, 31 de março de 2009

Betty punk e o atirador de elite!

Nada mais normal. Sexta-feira, abre os olhos, 6h30, água gelada no rosto, pasta de dente, escova de dente, banho gelado, lava o cabelo azul, sai pelada do chuveiro, enrola a toalha na cabeça, enxuga o corpo, olha a barriga e os peitos no espelho, veste calça colan preta, veste a meia preta, veste um jeans curtíssimo, bota o coturno, veste o sutiã da Betty Boop, bota top preto, veste casaco de capuz, pega CD-player, coloca U2 para tocar, pega pilha extra, enfia na mochila, coloca fone de ouvido, pega caderno, guarda-chuva, deixa a mochila no sofá, tranca a porta, ascende a luz do corredor, abre a porta, põe ração para o gato, toma um copo de leite, sai, tranca a porta, abre novamente, pega a mochila, tranca novamente, chama o elevador, acende a luz do corredor, volta e confere se a porta está trancada, pega o elevador, desce com o vizinho desagradável que fica olhando sua bunda, sai do elevador, sai pela portaria, caminha pela rua, pelos prédios, para na parada, no meio do temporal, absolutamente sozinha, cheia de expectativas e pesares...

O ônibus atrasa, o ônibus chega, passa da solidão para o excesso de companhias, o veículo está lotado, paga passagem, responde com mal criação a piada do cobrador, se espreme no meio das pessoas, vai para a parte da frente do carro, alguém passa a mão na sua bunda, tenta achar quem é, não vale a pena, continua se espremendo, ouve uma cantada suja, segue em frente, para na escada, tira um livro do bolso, se escora na barra, começa a ler, dá passagem para quem vai sair, volta a ler, vira a página, dá passagem para quem vai sair, volta a ler, segura forte porque o motorista corre e freia, volta a ler, vira a página, o olho dói, põe os óculos, volta a ler, lê por mais tempo, vira a página, o motorista chacoalha o carro, fica nervosa, volta a ler, o ônibus para, dá passagem para outros passageiros, volta a ler, dá sinal e desce do ônibus...

Corre até a marquise, procura a chave na bolsa, carro joga água e molha tudo, procura a chave na bolsa, acha o molho de chaves, passa uma moto, molha mais um pouco, acha a chave, a chuva aumenta, abre a porta da loja, levanta a porta da loja, trava a porta da loja, acende a luz da loja, tira o casaco, bota The Doors para tocar, acende as luzes do mostruário de vinis, olha no relógio, assina a folha de ponto, pega o caderno, estuda o material da faculdade, atende um cliente que não quer nada, volta a estudar, atende outro cliente que não quer nada, volta a estudar, não atende o próximo cliente, ele quer comprar um disco, vende o disco, ele quer um CD, vende o CD, ele quer um filme, vende o filme, ele fica com má impressão porque não foi atendido logo, para de chover, faz sol, ela volta a estudar, não aparece mais ninguém por muito tempo, aparece alguém, são 14h, ela assina a folha de ponto, seu amigo chega, ela se despede, vai para a parada, está cheia, o ônibus está vazio, segue para a universidade...

O rádio manda desarmar o posto de observação. 15h. Ele desmunicia a arma, retira a luneta, dobra o que é de dobrar, desarma o que é de desarmar, guarda na maleta, desmonta o tripé, guarda na maleta, pensa na manhã, guarda o binóculo, planeja a noite, enfia todo o material em uma sacola preta maior, lembra que matou um homem na última semana, não sente remorso, ajeita a boina, pensa na família do homem que morreu, sente pena deles, desce da torre da igreja, entra no furgão, balança dentro do carro, xinga o companheiro, ouve xingamentos, ri, provoca o motorista, ri mais, lembra do caso do traficante, ri mais, olha no relógio, fala sobre o livro que está lendo, fala sobre Esparta, fala sobre treinamentos militares, vai para a academia, fala de filmes, fala de mulheres, fala de dinheiro, fala de aluguel, fala de motos, vai para o banho...

Falta alguma coisa, sente um vazio, se enxuga, outros caras no vestuário fazem brincadeiras com a toalha, guarda tudo no armário, vê que esqueceu calça e tênis, veste a calça da polícia, tira a mochila do armário, enfia tudo na mochila, lembra que vai folgar quatro dias, sente alívio, pensa em viagem, pensa em fazer alguma coisa, pensa no governo, pensa nas pessoas, vai para a parada, o ônibus não demora, pega o ônibus, está cheio, mas tem lugar, vai sentado lendo, para na universidade,o ônibus quebra no caminho, pega outro ônibus, vai o resto do caminho em pé, um bebê chora no colo da mãe, fica olhando os olhos do bebê, lembra do filho mais novo de seu pai, dá sinal para o ônibus, o motorista não para, espera pacientemente, dá sinal novamente na parada seguinte, o motorista para, desce, vai caminhando até a universidade, 19h30...

Pensa que o dia acabou, pensa que a vida parece pobre, pensa que o sistema sacaneia todo mundo, pensa nos livros que leu, pensa no capitão fazendo piadas, acha graça, lembra da avó, pensa na tatuagem que quer fazer, pensa no computador que encomendou, pensa no torneio de arco e flecha, atende o celular, fala com o amigo, um carro passa, não ouve nada, a ligação cai, o amigo liga de volta, volta a falar com o amigo, descobre que o amigo vai ser pai, fala sobre a polícia, fala sobre o Bope, fala sobre planos para o fim de semana, fala sobre a garota punk, fala sobre a falta de sentido na vida, fala sobre a busca de um sentido, o amigo lembra que estão no celular, desliga o celular, um estranho se aproxima, encara o estranho, o estranho se afasta, pega um atalho, chega na universidade, senta no CA de veterinária, olha no relógio, abre o livro, começa a ler, alunos passam, os espartanos recebem Alcebíades, a guerra muda de lado, ele olha no relógio, não consegue se concentrar, volta a se concentrar ela para diante dele...

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, 20h12, eles se beijam longamente, ela fica mole e feliz, ele fica duro e contente, dão as mãos, alunos passam por eles, caminham, contam o tempo que ficaram sem se ver, ele conta o que fez durante a semana, pessoas passam por eles, fala de armas, de como Alcebíades é importante na história da Grécia, ela fala sobre Tróia, conta dos animais que dissecou, dos filmes e discos que vendeu, professor, professora, aluno, aluno, servente, planejam o final de semana, ela não conseguiu folga segunda e terça, param, se beijam, ele a espreme contra a parede, ela fica feliz, voltam a caminhar, vão para a parada, o ônibus demora, ele fala de como ficou na torre da igreja, ela está hipnotizada, ele fica hipnotizado pela hipnotização dela, se beijam, o ônibus chega, está vazio, resolvem parar no bar, ele liga novamente para o amigo, ele vai para lá de carro com a noiva, começam a comer e a beber, falam sobre bebês e noite a dentro...

Homens brigam no bar, 22h45, ele pede a conta, o amigo sai com a noiva, ela se levanta, ele se levanta, um homem voa em cima dela, ele empurra o homem em cima do outro que estava brigando, os amigos do que voou partem para cima do atirador, ele bate em um, bate em dois, bate em três, apanha de quatro, o amigo entra, ela puxa ele para fora, fogem para o carro do amigo, a noiva fica nervosa e passa mal, vão para o hospital, ele ganha pontos na sobrancelha, o amigo imobiliza o dedo, a noiva faz ecografia, ela fica na sala de espera, está chateada, ele volta primeiro, eles discutem em voz baixa, tem uma mulher que apanhou do marido, um velho com dor nos rins, paramédicos passam com um homem gordo na maca, correm muito, eles conversam mais, ele pede desculpas, ela vira o rosto, ele beija a orelha dela, passa um homem sangrando, passa uma garota segurando o braço, uma mãe com um menino no colo, ela o perdoa, o amigo e a noiva saem do consultório, ele dá um dinheiro para a gasolina, eles seguem para a casa dela...

Eles param no semáforo, travestis acenam, eles seguem em frente, um carro de vidro fumê os persegue por um tempo e depois vai embora, uma viatura da polícia para o amigo, eles mostram que são da polícia, o policial faz vistoria no veículo, as meninas ficam nervosas, eles passam em uma lanchonete, fazem um lanche, uma criança pede dinheiro, a noiva paga um sanduíche, um bêbado pede dinheiro, ele pede para que ele saia, um mendigo pede comida, o amigo se irrita com o jeito do homem, eles se desentendem, ele olha para ela e eles olham para a noiva, ele se levanta e apazigua, pede para o mendigo ir embora, o garçom manda o mendigo embora, 0h57, eles pagam a conta, entram no carro, o amigo dirige a toda velocidade, ouvem Bom Jovi e cantam em voz alta, os namorados se beijam no banco de trás, os noivos se divertem e a grávida passa a mão no pênis do noivo enquanto ele dirige, param em frente ao prédio dela, eles descem, o amigo e a noiva se despedem e vão embora, eles acham que a noite foi boa, entram na portaria, entram no elevador...

Alcebíades e os espartanos e o CD-player com o U2 ficaram no sofá da sala-cozinha, o atirador e a menina punk foram para o quarto, estavam cansados, mas acordados, se beijaram, ele tirou a blusa, ela tirou o casaco, ele soltou o cinto, ela tirou o top, se abraçaram e se beijaram, ele tirou o sutiã dela, ela tirou o jeans e a calça colan, rolaram pelo chão, subiram na cama, rolaram na cama, se beijara, se preencheram, gemeram, sussurraram, trocaram de posição, suaram, beijaram, beijaram, lamberam, beijaram, falaram alto, sentiram prazer, rolaram, caíram da cama, rolaram. Continuaram, ele dominou, ela dominou, ele sorriu, ela foi às nuvens, se amaram, ad infinitum, a noite inteira, amém...

terça-feira, 24 de março de 2009

O Caminho das Folhas - Fotografias (Cap. 4)

O cheiro de químicos inebriava o laboratório. O local era dotado de uma atmosfera escura e misteriosa. Havia um “q” de tranqüilidade em tudo. Na escuridão, passos ligeiros e ágeis e mãos de dedos finos tateavam e dependuravam fotos em um varal. Nem uma réstia da usual luz vermelha iluminava a sala. Tudo era perfeitamente organizado, meio a moda antiga. Além do silêncio, apenas o murmurar doce de uma canção. Uma mulher trabalhava. Jaleco branco sobre a roupa. Ilka revelava os últimos trabalhos de Tom, sempre encantada, com a ansiedade aflita de querer ver primeiro as fotografias daquele artista. Era um grande capricho. Ele não a conhecia. Não sabia que era ela quem cuidava de suas revelações. Mas a jovem, dona do Photo, sabia muito bem quem eram seus clientes, e como tratar as fotos de cada um segundo seu tom de voz e o tempo de exposição do material, em uma relação engraçada e difícil de compreender. Repentinamente as luzes vermelhas da salinha se acenderam.
- Laila?
- Como você sempre acerta? Eu mudei o perfume, vim de tênis para não fazer barulho e tudo.
- Eu reparei também. O que foi?
- Seu cabelo está lindo. Não sei como faz essas coisas tão simples e tão bonitas. O Takeshi concluiu as fotos coloridas...
- Veja Laila, olhe como estão ficando... Não são lindas?
- Nossa! São lindas mesmo. Ele surpreende a cada trabalho. Como consegue ver o mundo desse jeito? São detalhes que nunca percebemos. Uma ferrugem no portão, o olho do sapo, cada coisa... Sei lá.
- Que inveja, amiga. Se eu pudesse ao menos vê-las. Mas sei que são boas. Posso sentir. Elas estão repletas de arte, e até as moléculas do papel e do químico sentem isso. É como se o conjunto soubesse o que está compondo, e eu como regente, pudesse escutar a música que a foto exala. É tudo uma questão direta de conversão de energia. Já li muito sobre ele, sabia?
- Do jeito que você fala, às vezes parece que você vê essas imagens, sabe? Pouca gente percebe essas relações que você faz com o mundo...
- Um trabalho de arte de verdade está sempre carregado de uma energia de beleza. Dá pra sentir, ouvir, cheirar, enfim... É quase como se eu pudesse escutar o que as imagens dizem, nesse caso. Eu senti isso quando vi a Venus de Botticelli. Tinha uns 10 anos. Foi quando eu entendi. Meu velho me colocou parada diante do quadro, e depois de outro quadro, e senti a diferença. Foi incrível. É como se saísse um vento diferente de cada obra, como se ela respirasse. Desde então passei a amar arte. Meu pai sempre achou estranho, mas me apoiou. Não é engraçado?
- Eu sei... Você já contou essa história mil e uma vezes. Eu adoro ouvir, mas não dá tempo agora. Então, as fotos coloridas também estão prontas? Posso ligar pra ele? Precisamos ver os outros clientes...
- Não. Vamos esperar essas ficarem prontas. Amanhã, quando abrir eu ligo, às 9h em ponto. Amanhã é dia treze, não é? Aí falo com ele. Aí você para de me encher com essa história de fale com ele, se aproxime, chegue junto, etc, etc..
- É, é treze. Paro de te encher o dia que você fizer ele te convidar pra sair com ele, e me contar como foi tudo depois.
- Ai, não vai ser nada. Você vai ver. Vai ser uma conversa morna, de trabalho. Até parece que ele vai me conhecer e me chamar pra sair, ou que eu vou chamá-lo para sair assim. Vamos nos falar por telefone e marcar um encontro no balcão, só se for. Ele deve ser super profissional. Você vai ver. Alô, alô, as fotos estão prontas, vou buscar, muito obrigado, obrigado o senhor, bla, bla, bla.
- Você passou o trabalho dele na frente de todos os outros mais uma vez. Vamos atrasar outros clientes por isso, sabia? A conversa vai ser morna, mas você vai receber ele depois, e eu vou mexer os meus pauzinhos. Já te falei que minha irmã é colega de uma amiga dele, uma publicitária. Alguém sempre conhece quem você procura em Brasília. Não deve ser difícil alcançá-lo.
- Ai, ele deve ser lindo como as fotografias dele. Fico imaginando como são os traços, como se fossem entalhados na madeira, só que suaves.
- Você e esse seu amor platônico.
- Não ria! Descreva-o mais uma vez. Eu sou sócia majoritária. Mando aqui.
- Por favor, tenho mais o que fazer.
- Não seja cruel.
- Tá bom. Ele tem cara de pastel molhado. É bochechudo, com barba, olhos castanho-claros, é muito objetivo no que fala e se veste igual a um cantor de folk.
- Mesmo com seu sarcasmo ele ainda parece maravilhoso. Como um cantor de folk se veste? Laila se retirou. A luz vermelha se apagou e toda a sala mergulhou em uma imensidão negra. A porta se fechou. Ilka mergulhou na introspecção do lugar e trabalhou sem se distrair. As imagens vivas de Thomas pareciam enxergar no escuro, como elementais da natureza, enquanto a jovem dançava na escuridão.

sábado, 3 de janeiro de 2009

O Caminho das folhas - Despedida (Cap. 3)

Quanta gente. Não chora. Me abraça. Ninguém esperava por isso. Pobrezinha. Dizem que o lado direito ficou irreconhecível. A Rafa era demais. Não vai ser a mesma coisa sem ela. Como arranjava tanto tempo? Ela fazia tudo. Ainda dava pra matar aula e jogar Totó. Eram só os dois. Os pais já tinham morrido em um acidente de avião. Que tragédia. Ele ficou só. Aquele sorriso engraçado, grande. Por isso ele não quer ficar. Só vai fazer o discurso. É? É. Chegar, fazer o discurso e partir. Olha só quanta gente. Era uma menina feliz. São amigos da faculdade. Fica aqui. Vamos lá pra fora. Você vai se sentir melhor. Ela me disse que estava preparando. Lembra que ela fez o dinossauro de papel com cola e arame? Ficou igualzinho. Não sei como serão os dias sem ela. Quando o Claudio me ligou, não acreditei. Não fica assim. O Paulo saiu do coma, mas o Henrique ainda não. Não é hora de falar sobre isso. Meu deus, como dói. Vem cá, me abraça, isso. Ela é que estava dirigindo. O pneu traseiro caiu na vala e saiu, daí ela perdeu o controle. O Marcos que recebeu a notícia primeiro. Parece que a mãe dele é orientadora do João, e eles são muito amigos. Ele me ligou e saímos ligando pra todo mundo. Muito foda dar uma notícia dessas. Senta aqui. Toma um lenço. Lembra daquela dancinha? Ela e as meninas da monitoria que fizeram. Foi muito engraçado. Estranho, né, amanhã ela não vai estar mais lá. Voou em cima da manilha. Rafa, volta... Por quê? A mídia não dá um tempo. No enterro. Calma, João. Como está o Tom. Arrasado. Dê licença, amigo. É melhor que você vá embora. Já dissemos tudo que tínhamos que dizer. O irmão dela fará um discurso e deve acompanhar o cortejo. Se conheceram na escolinha de futebol, no final dos anos 80. É por isso que o caixão ficou fechado. Façam fotos de longe, se quiserem, mas, por favor, nada de entrevistas. Não, senhorita, ele não vai falar com ninguém. Alguém segura o João, ele está muito bravo. Vamos pra dentro. Me desculpe. É um momento difícil. Meus pêsames. Ela era minha melhor amiga... Entendo seu lado. Era tão feliz. Conhecia aquele caminho como ninguém. Por causa de um cinto de segurança. Mas ela não era de andar sem cinto. Será que ainda demora? O professor chegou. A coordenadora do curso também veio. A gente precisa ficar unidos. A Thalia está passando mal. Alguém tira ela daqui. As crianças do orfanato também vieram. Deve ser o velório mais cheio dos últimos meses. Senta aí. Toma um gole d’água. Ela não consegue nem falar. Era uma menina feliz. Dá o maior desespero. Merecia uma despedida feliz. Não ia querer ver todo mundo assim, tão baixo-astral. Mas é tão difícil. Tão difícil... Ela era a líder da trupe. O irmão não chegou até agora. Espero que não venha. Pobre Thomas. Tom é forte. Ele vai agüentar. Não sei não. Ela era tudo para ele. Sumaya, não fica assim. Senta aqui. Vamos sair e caminhar um pouco. Talvez fiquemos melhor. Ela ia gostar. Tudo lembra a Rafa. Que merda. Calma, Túlio. Vem comigo. Não fica aqui. Rafa, volta... Por quê? Mas é tão difícil. Tão difícil... A Cálida que falou. Namorada do João. Matheus! Vem pra cá. Fica com o pessoal da faculdade. Fizemos uma faixa. Pobrezinha. Dizem que o lado direito ficou irreconhecível. Meus pêsames. Vamos cantar aquela música, aquela que ela gostava. Quase morri, há menos de trinta e duas horas... Tão triste e tão lindo, todo mundo unido. O João saiu. Foi lá pra fora. Não está agüentando muito também. Eles eram muito amigos. Ele é ex-namorado dela. O Tom ficou puto na época, lembra? Mas eles eram muito amigos. Ele mesmo reconheceu que era só ciúmes. Pena não ter dado certo. Abaixa aqui. Senta, vai, você não está bem. O pneu traseiro caiu na vala e saiu, daí ela perdeu o controle. Os meninos ainda estão em coma. Não. Um saiu hoje de manhã. Que bom. Foi terrível. Não fica lembrando. A Cris não conseguiu falar uma palavra desde que chegou. Está ali, com o Chico. O pessoal cantando. Que bonito. São as pequenas coisas, que valem mais... Não cabe todo mundo na capela. Ela vai ficar no túmulo ao lado dos pais. Em um acidente de avião. Fala baixo. O Lucas. Era o ficante dela. Ele vinha em outro carro. Tinha se atrasado. Estava com mais um pessoal. Quando chegou no local do acidente a polícia já tinha chegado. Não dá pra acreditar. Queria arrancar isso de mim. Por que ela fez isso comigo. Eu sei. Eu sei. Oi João. Ola. Essa é minha namorada, Cálida. O Tom ainda não veio. A Márcia foi buscá-lo. Não. Arrasado. São os tios do Tom. Vieram de Rio Grande. Está bem cheio. Essa é Cálida. Muita tristeza... Dá pra sentir. Assinem o livro. Com licença, aqui que é a capela da Rafaela. Somos do Espaço Cultural, da 508. A turma de teatro. Alguém me ajuda aqui! A Thalia desmaiou. Lucas, vamos levar ela pra fora. É bom que você sai um pouco também. É um momento difícil. Meus pêsames. O João saiu. Foi lá pra fora. Mas é tão difícil. Tão difícil... Rafaela era uma bagunceira. Menina feliz. Professor, me dá um motivo. Me abraça, Glenda, me abraça. Também não sei. Tão lindo o pessoal cantando. Acho que ela deve estar sorrindo, olhando pra cá, dizendo que somos uns bobos. Para, vai. Que saudades. Só por hoje, eu não quero mais chorar... Ela ia me buscar em casa, mas eu tava com dor de cabeça. Que merda, cara. Não entendo por que. São as crianças do orfanato. O pessoal da faculdade. Uma galera da 508 Sul. Amigos de bloco. Muita gente veio e já até foi. Os jornalistas não dão uma folga. São uns urubus. Não dá pra aceitar, não dá. É tanta coisa. Aceitar, o que passou, o que virá... Porque que deus faz isso? Tenta ser forte pelas meninas. Aquele é o Jonas, o mais velho deles. Ela dava aula de matemática pra ele. Arruma o microfone. Já testou o som? Já está tudo testado. Ele vai falar e depois vamos para o cortejo. Vou ficar aqui fora mesmo. Não quero ver não. Era tão bonita. Que trágico. Tom é forte. Ele vai agüentar. Aquele sorriso dela vai ficar marcado em nossas almas. Ela era a líder da trupe. O irmão não chegou até agora. Espero que não venha. Vai ser muito sofrimento. Ele não precisa. Já perdeu a irmã, arrumou tudo isso. Não sei se seria melhor. Não sei. Está melhor. Ainda bem que o Wagner te segurou. Vou ficar sentada aqui. Fica também, Lucas. Ele está chegando. Vi o carro da Márcia. A Graziela está com eles. É o pessoal da agência de fotografia. Colegas de trabalho. Não quero enterrar ela. Não quero. Para. Por favor. Me abraça. Ainda dá pra ouvir o sorriso. Era uma risada tão gostosa. Fã de Legião, Paralamas, Cássia Eller... Por isso eles estão cantando. Fica aqui também, Túlio. Acho que só agora eu começo a perceber... João? Ele está chegando. Quer ajuda? Não. Vamos só acompanhar. Caramba, ele emagreceu! Se arriscando, a me perder assim, ao me explicar o que eu não quero ouvir... Nem parece que foi ontem. Meus pêsames, cara. Obrigado. Obrigado João. Relaxa cara. Que é isso? O pessoal da faculdade! Oi gente. Nossa, está cheio mesmo. Olha lá, é o Tom. O pessoal do orfanato. Obrigado por terem vindo. Estuda, viu garotão? Obrigado. Vai fazer falta, né? Se precisar, estamos aí. Obrigado. Tio! Calma, rapaz, calma... Tia... Vai, meu filho, estamos com você. Vou tentar. Não precisa, se não quiser. Com licença. Silêncio. Presta atenção, ele vai falar. Está ligado? Está. Bom dia. Obrigado por terem vindo. Meus tios cruzaram o País. Cada um venceu uma limitação para se despedir... De uma pessoa... Se despedir de uma pessoa tão especial. Estava pensando em uma música dos Beatles... Eu sei que é da época dos nossos pais, mas ela gostava muito. Sempre fomos ligados a eles. Essa música... Ela... Baby... Vou sentir tanta saudade de você... A casa está tão vazia. Dói muito. A Rafaela... A Rafa foi como um cometa... Um cometa... Um cometa... Ela... Me desculpem... A Rafa, ela sorria tanto. Era um anjo. Um anjo lindo. Quando fiquei sabendo... Acho que... Acho que... me desculpem. Não sei se consigo fazer isso... Vem comigo, cara. Não precisa. Me abraça. Vamos sair logo com o cortejo. É melhor. Obrigado.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Especial de Natal Casa das Mentiras

O homem de terno marrom avançou em meio às pessoas da feira, com passadas fortes e firmes. Passou pelos melões, pelos pimentões, pelas cenouras, por uma velha com a sacola enorme, pela mãe com o filho, pelo namorado com a namorada, pelo tomate, pelas mangas, pelo casal de velhinhos, pela figura de burka, pelo rabino, pelo judeu, pelo homem negro de roupas colorida e pelos americanos. Ele movia todo o seu corpo para frente com o olhar fixo e uma determinação elevada, para que seu espírito não o traísse pelo medo. Puxou o homem de terno cinza, que sorriu por uns instantes ao vê-lo, e socou-lhe a face.
Antes que a vítima pudesse se dar conta do que estava acontecendo, o agressor marrom socou-lhe novamente a face e o derrubou no chão. As pessoas se amontoaram. Uma mulher gritou. Homens se aproximaram para apartar, mas não conseguiram deter aqueles braços contrariados e fortes, que pareciam, incrivelmente, agir por dever. E, tomado por uma ira, o homem de terno marrom sentou sobre o homem de terno cinza e deu-lhe mais três tapas, até que o outro finalmente desse conta do que estava acontecendo e elegantemente afastasse o brutamontes para longe de si sem muita dificuldade.
O homem de terno marrom estava aos prantos, enquanto o agredido recompunha-se sem uma gota de raiva no olho, embora tremesse um pouco e tivesse sangue nos lábios e os olhos bem abertos. Depois que estavam de pé, frente a frente, o homem de terno cinza finalmente respirou e começou a falar enérgico. As pessoas que se detiveram por alguns momentos enquanto brigavam, voltaram a caminhar comentando o ocorrido sem entender e fazendo especulações diversas. Curiosos, atentos e pessoas bem e mal intencionadas seguiram seus caminhos.

- Por que me bates? Não tínhamos conversado? Não estávamos resolvidos? Achei que não te devesse mais nada! Mas agora, aqui, em praça pública, me humilhando na frente de todos esses desconhecidos, você me soca a face!? O que queres que eu pense? Já fiz tudo que podia ser feito! Já te pedi desculpas!
- Não se trata mais de você. Não te bato por ódio, e nem por rancor!
- Recomponha-se! Pare de chorar. Não há necessidade disso. Se me feres, quem deveria se verter em lágrimas sou eu, e não tu. No entanto não choro, então também não tens motivo.
- Choro porque sofro em te infringir dor. Por que ao te ferir me machuco ainda mais.
- Não entendo então. Já te pedi perdão de joelhos! Se sofres tanto em me agredir, se isso não te trás nenhum alívio, porque me esbofeteaste?
- Você sempre foi mais forte! Mesmo eu sendo maior, você sempre foi melhor de briga que eu! E mais ainda, sua força moral sempre esteve acima da minha, muito mais elevada. Mesmo que você tenha me ferido de um jeito que nenhuma dor física consiga me atingir, meu amigo, meu irmão, continuo sentindo essa força espiritual inspiradora emanar de você e me guiar pelos caminhos do mundo como um mestre... Você sempre esteve acima para mim...
- Não compreendo. Aonde queres chegar? Queres novamente que eu te peça perdão por tudo que fiz? Se quiseres, eu peço, aqui, de joelhos, em frente a todas essas pessoas. Não me custa. Não é demais para mim. Somos irmãos. Teu perdão vale mais que meu orgulho. Não temos o mesmo pai ou a mesma mãe, sou rico e tu és pobre, mas eu te amo e nem Allah pode mudar isso. Eu te peço: perdão, meu irmão. Pequei contra ti e contra meu espírito. Te peço perdão.
- Não é isso. Não quero que me peças perdão novamente. Não te humilhes. Levante-se, por favor...
- O que queres então? Porque me esbofeteaste?
- Precisava... Precisava ter certeza...
- Certeza de que?
- Certeza de que realmente lhe perdoava, com o meu coração, com o meu espírito, e que não fazia isso por covardia ou impelido por tua grandeza, por interesse pessoal.
- Irmão!
- Por que me olhas assim? Estás a chorar tu agora?
- É que agora me sinto realmente perdoado. Compreendo a essência e o valor dessa palavra como nunca. Não há mais arrependimento, porque vós me perdoastes. Muito obrigado, irmão! Muito obrigado. Allah foi muito generoso de pô-lo em meu caminho. Tu és um homem superior. Toda a dor que me causaste agora a pouco tornou-se em redenção!
- Pare de chorar tu agora, que estás a me envergonhar. Dá cá um abraço, meu irmão querido! Não vamos brigar mais.
- A partir de hoje este dia será considerado feriado em minha família, e trocaremos presentes em tua homenagem! Sumaya vai preparar um belo jantar hoje. Poderias passar lá em casa para nos saudar com tua presença, para comemorarmos esta data especial.
- Claro...
- Acreditas que...
- Sim, com certeza...
- ...
- ...
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Apresentamos o Especial de Natal Casa das Mentiras!. Em breve voltaremos com mais sobre a saga O Caminho das Folhas, e a história de Thomas, Ilka e Rafaela. Feliz Natal a todos!!!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O caminho das folhas - A festa (Cap. 2)

Cheiro de expectativa no ar. 16 de abril. Tudo decorado. Balões vermelhos, verdes e brancos. As mesmas cores no xadrez das roupas dos garçons. O estúdio de paredes roxo-cinzento estava todo decorado, igual a um salão de festas. As cortinas estavam fechadas e o som desligado. Os convidados eram servidos em suas mesas. João afinava uma guitarra no volume mais baixo. Tom ia chegar a qualquer momento. Era uma surpresa. Uma grande surpresa. Ele tinha 27, mas não era seu aniversário. Rafaela corria para lá e para cá. O interfone tocou. O porteiro avisou que o dono da casa estava subindo. Todos apagaram as luzes. A menina preparou o próprio triunfo, que era comemorar o triunfo do irmão. Silêncio.
Rafaela estava com a razão. Ele fora aprovado com mérito. Foram quatro anos de estudo. As coisas deram certo rápido demais para ele. Era agora mestre em fotografia e comunicação visual pela Universidade de Brasília. Ele parou o carro, caminhou contente pelo piloti, ansiando chegar em casa e contar tudo para a irmã. Esperava um cafezinho, e depois trabalhar nas fotos que o GDF encomendara para a festa de gala de aniversário de Brasília. Um silêncio cairia muito bem. O porteiro estava estranho aquele dia. O fotógrafo entrou na portaria, entrou no elevador e parou no corredor do primeiro andar. A luz se acendeu. As paredes branco-gelo e a samambaia de mentira em um grande vaso o cumprimentaram.
Estouros, cornetas, confetes e serpentinas no ar. Thomas abrira a porta. Um imenso grito de surpresa o deixou paralisado. Os Paralamas começaram a tocar Vital e Sua Moto. Rafaela pulou de chapéu, língua de sogra, colar de flores havaiano e nariz de palhaço em sua frente. Estava com aquele sorriso que era um sorriso sempre ideal, com convinhas, maroto, engraçadinho. Ele fora pego. Não tinha escapatória, mas estava feliz. Aquela diabinha. A levantou no colo e girou. Ela gritou. Ele a soltou. Muitos vieram lhe dar os parabéns. Abraçou João, seu eterno irmão de aventuras, cumprimentou os colegas de faculdade da irmã, inclusive o tal Lucas. Sorriu para todos e atendeu o telefonema dos tios do Rio Grande do Sul.
Muita lasanha, vinho tinto, macarronada e profiterolis para a sobremesa. Belle and Sebastian, Franz Ferdinand, Gal Costa, Caetano Veloso, Legião Urbana, Pink Floyd e Beatles. O volume foi abaixando. O número de pessoas foi diminuindo. Os carros na rua foram desaparecendo. A euforia foi chegando ao fim. Thomas beijava Graziela. Se atracavam. Os garçons estavam exaustos quando finalmente se foram. Os visinhos já haviam reclamado. A casa pareceu mais deserta que o habitual. Havia muito lixo. A garota beijoqueira da agência de publicidade ficou por último com João e Cálida para ajudar os irmãos. Depois ficaram sentados na cozinha, tomaram café e falaram sobre a vida. Tom contou como foi sua banca. Como desbancou.
Passava das 3h. Rafa abraçou o irmão com força. Ele sorriu. Estava com olheiras, esgotado. Ela também. Os planos de trabalhar naquela noite foram por água abaixo. O som alto ainda reverberava em ecos, latejando na cabeça dos cinco. Grazi, então, foi embora. João abraçou o amigo novamente. Cálida se despediu. Eles insistiram para o casal ficar. A caçula sorridente trancou a porta quando enfim estavam sós. Tudo voltara ao normal. Mais ou menos. Era uma nova fase para o mais velho. Mas ainda eram os mesmos. Ele levou o porta-retratos do quarto para a cozinha, e trocou a foto da geladeira, com Rafaela de palhaça, pela foto dos irmãos abraçados na creperia. Nela estava escrito: “Garotos perdidos! Eternamente unidos”.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O caminho das folhas - Queda livre (Cap. 1)

Era 13 de setembro. Tom abriu os olhos de manhã. Estava com o rosto inchado. Sentia ressaca. Sua barba castanha estava desgrenhada na face. Sentiu um mormaço na boca. Procurou por Rafaela, mas ela não estava em casa. As janelas estavam todas abertas. Uma luz clara, de dia ensolarado, entrava por todos os lados. Ele levantou-se e caminhou de cueca e camisa sem manga branca pela casa. Coçou a bunda e fungou com o nariz. Tossiu e pigarreou. Na cozinha, um recado em cima da mesa. Ele levantou e aproximou o papel dos olhos. Estava sem lentes. “Fui ao Poço Azul com uns amigos, não me espere para o almoço. PS: A Ilka, do photo, te ligou. Disse que você pode ir buscar os quadros. Peguei o Ka. Beijos, mano”. Ele olhou o relógio de pingüim sobre a geladeira. Eram 9h20 e pouco. Pigarreou novamente e foi vestir-se. Era uma bela sexta-feira.
A agenda de Tom estava vazia. Ele gostava de reservar uma sexta por mês, pelo menos, para ficar com amigos, beber e olhar a cidade. Alguém tocou a campainha. Ele gritou que esperassem. Cuspiu a pasta na pia, bochechou, limpou a barba e os olhos e enxugou o rosto rapidamente, vestiu as calças desajeitadamente, e ainda descalço e com a blusa cavada branca, correu para abrir a porta sem pentear os cabelos. Quem seria? Quarto, corretor, cozinha, estúdio fotográfico, porta da rua. Era um policial militar. Ele abriu a porta e sorriu. O homem tinha um olhar estranho. Tom ficou sério. Por um momento, não era um policial, mas um homem fardado, e carregava consigo um fardo sobre a farda e o olhar de quem ia passá-lo adiante. O medo perpassou a garganta do jovem fotógrafo. Ele tossiu breve e contido. Tudo parecia eternamente lento, embora segundos se passassem. Eles se encaravam. Ele convidou o homem para entrar, mas a princípio ele não aceitou. O homem tinha um papel em mãos, e leu alguma coisa antes de falar...
- Senhor, o senhor é Thomas Braga?
- Algum problema?
- O senhor é irmão de Rafaela Stacciarine Braga?
- Rafaela? Sim. Por quê? Alguma coisa errada com ela? Ela está bem?
Tom sentiu o coração disparar. O que um policial estaria fazendo em sua casa pouco antes das 10h da manhã para falar sobre Rafaela? Ele não queria escutar o homem de cinza, queria apenas vê-la. Tentou não pensar no pior. O sangue subiu para sua cabeça. Seus olhos ficaram fixos no homem da lei. Ele esperou que ao pessoa diante dele dissesse mais alguma coisa.
- Senhor, sinto dizer, mas ela sofreu um grave acidente de carro, na estrada que dá acesso a Brazlândia. Não senhor. Sinto muito. Morreu antes mesmo do socorro chegar ao local. Acalme-se. Senhor Thomas, por favor apóie-se no meu braço. Isso. Vamos entrar. Venha comigo. Me guie pela casa. Procure respirar. Onde é a cozinha? Isso. Isso mesmo. Sente-se nessa cadeira. Vou pegar uma água para o senhor. Mantenha a cabeça abaixada, assim, sua pressão baixou muito. Quer que eu ligue para alguém? Não pode dirigir assim. O senhor tem alguém para te acompanhar no IML? O senhor terá de ir ao IML. Não é bom que o senhor dirija nesse estado. Quer que o leve?
- Não. Liga pra alguém. É melhor. Liga... Liga nesse número – aí na geladeira.
- Um momento senhor. Onde está o telefone?
- No estúdio, perto da porta.
- Só um instante. Já volto. Tome essa água. Quer que chame um médico?
- Não.
- Um momento. Alô! Senhor João? Aqui é o cabo Fontoura da Polícia Militar. Sim. Isso mesmo. Ricardo Fontoura. Estou na casa do senhor Thomas. Não, ele não está bem. Não. Ele perdeu um parente. Disse que eu poderia te ligar. Para o senhor vir vê-lo. Já está a caminho? Vou avisar. Sim. Por nada. Ok. Pode deixar. Senhor Thomas? O senhor está melhor? Tem certeza de que não quer que eu chame um médico? O João já está a caminho. Esse é meu número. Se precisar, pode ligar. Posso esperar por ele, se preferir...
- Não. Não quero. Vá embora, por favor. Muito obrigado. Preciso entender o que está acontecendo. Vá embora, por favor. Eu quero ficar só. Eu sei. Não, não vou fazer nada. Me dê licença. Saia da minha casa. Eu vou ao IML. Vou esperar o João. Já tenho seu celular. Muito obrigado. Agora, vá embora, por favor. Por favor.O cabo não foi realmente embora. Ficou na porta da casa de Thomas, com ouvidos acurados, escutando barulhos, com medo de que ele fizesse alguma besteira. Tom, por sua vez, não se importou de que o homem ficasse em sua porta. Nem o viu, para falar a verdade. Nem se lembrou dele depois de encostar a porta, que era de ferro, pesada, de um azul bem escuro, com um olho mágico no meio, e sobre o olho, do lado de fora, o número do apartamento: 111. Não sentia vontade de chorar. É como se não entendesse o que estava acontecendo. Não tinha alma, não tinha sentimentos. Estava pálido, vazio, sentia-se tonto e desorientado, e uma dor sem tamanho fazia com que suas energias se esvaíssem por todos os poros de seu corpo como uma torneira aberta que desperdiça água. Suava frio. Ele voltou para a cozinha e sentou-se novamente. O copo de água, ainda pela metade, estava inerte sobre a toalha de plástico amarelo que Rafaela tinha comprado. As canecas engraçadas da menina estavam dependuradas na parede, como olhos que o encaravam. O copo ainda sujo de leite estava sobre a pia, como um sorriso amarelo e sem jeito, pois ela nunca lavava louça pela manhã. A casa era intocada. Tudo transpirava a alegria jovial de Rafaela. Eles só tinham um ao outro. Ele foi entendendo aquilo. A notícia foi se misturando à realidade. Se misturando. Sua cabeça girava mais e mais. Rafaela estava no silêncio, na solidão, na ausência, em um recado que acidentalmente fora parar no chão, na foto dos garotos perdidos, no nariz de palhaço, no ladrilho laranja, nas roupas espalhadas no quarto de empregada, no porta-retratos, mas subitamente não estava mais ali. Ele deu um grito de agonia, liberando todo seu inconformismo, cerrando os punhos, se contorcendo. Bateu, em um espasmo violento, no copo, que se quebrou, cortando-lhe as costas da mão. O vidro e a água se espalharam pela mesa e pelo chão. Um pouco de sangue gotejou. Ele apoiou a cabeça nas mãos e os braços nas pernas e chorou como uma criança, e caiu no chão, em decúbito dorsal esquerdo, e encolheu-se em posição fetal, socando o piso, com o estômago pegando fogo, com as veias na fronte a ponto de explodirem, hora sussurrando, hora gritando, com lágrimas intermináveis e muco sujando seu rosto, sua barba, seus cabelos, na esperança que Deus ouvisse suas súplicas, seus palavrões, sua revolta, que Rafaela entrasse pela porta sorridente e prática, que fosse mentira, que fosse um trote ou um pesadelo, até a última réstia de força, afogado em agonia, e apenas sussurrava sonolento quando João, com seu casaco de flanela, também em prantos, o ergueu e o levou para o quarto sem dizer uma palavra. Num ato sereno em meio à tragédia, os amigos se arrumaram em um silêncio agônico, e dirigiram pelas vielas de Brasília rumo ao Instituto de Medicina Legal. Na Rádio Notícias, uma repórter falava do acidente que deixou dois jovens em coma, em estado grave, e fez uma vítima fatal, a estudante de arquitetura do Centro Universitário de Brasília, Rafaela Stacciarine Braga, de 19 anos. John desligou o aparelho antes que a matéria terminasse.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Outubro Laranja

As cigarras cantavam há muito tempo, mas não chovia em Brasília. Podia-se caminhar a pé pelo Eixinho, pelo Eixão, pelas W3, pelo parque, e algumas vezes se ouvia a música dos insetos bem de longe, mas se ouvia. Nada de chuva. Era o outubro mais quente dos últimos 10 anos, o que significava que se houvesse uma forma de destacar os outubros dos outros meses e colocá-los lado a lado, como uma coleção de inseto, esse talvez fosse o maior, mais forte e mais vermelho. Até o vento frio da madrugada era quente.

Caminhando pela Água Mineral podia-se ver em todas as árvores as cascas queratinadas de insetos que cresceram e abandonaram sua velha carcaça. Aqueles eram exoesqueletos de cigarras (olha elas ali de novo), que quando criança Artur gostava de usar como broche. “Olha, mãe, uma casca de bicho. Vou grudar um monte na camisa”, dizia. “Não seja nojento menino!”, respondia dona Vera sem prestar muita atenção. Era uma sujeira toda vez que a mãe o buscava na escolinha da Vivendo, na L2, no final do dia.

As águas nas encanações estavam quentes. A água do filtro estava quente. O Poço Azul era um verdadeiro oasis, bem como a piscina velha do Parque Nacional. Os animais se deitavam à sombra, enfastiados, olhando o mundo, esperando a vida passar. O asfalto gerava miragens, flamejava. Muito sorvete e água gelada. Todo o Distrito Federal queria chover, queria água, queria assentar a terra vermelha. Se sentiam em um filme daqueles de nordeste, de chão rachado, bem picaresco, que é para dar ênfase ao calor do lugar.

Foi quando caíram os primeiros pingos que Artur beijou Maria. Foi feliz. Caminhavam pelo estacionamento do Setor Comercial Sul, e os vidros fumês dos carros refletiam tudo como espelhos, cheios de gotículas agradavelmente molhadas, bonitas de se fotografar, que umedeciam a atmosfera abafada de um dos lugares mais movimentados de Brasília. Lá não se ouviam as cigarras, apenas os ambulantes, os motores, as buzinas (em Brasília não se usa buzinar). Estavam bem na frente, perto do Conic. A água estragou o sorvete da garota, mas ela estava focada em outra coisa.

- Você me beijou, gato!
- Eu sei.
- Agora não somos mais amigos.
- Somos, mas não somos apenas amigos.
- Hum... Você parece que sabe de tudo.
- É. Eu sei de tudo.
- Convencido...
- Você também sabia...
- É, mas não posso dizer. Sou menina.
- É menina. Minha menina agora.
- Você tem um beijo muito gostoso.
- Que nada, são seus lábios.
- Brega...
- Brega é você me chamar de "gato". A maior gíria dos anos noventa, gata.
- Ei!

Mas aquilo já era passado. Aquela garota molhada, a virgindade do rapaz, os seios pequenos, a cama e tudo mais. Até as noites de teatro e os círculos de discussão de Ariano Suassuna eram passado. Era o outubro mais quente do ano e ainda não havia chovido. O jovem biólogo caminhava pelo Pistão Norte, em Taguatinga, empurrando sua bicicleta com o pneu furado, e pensou que devia se livrar daquela casca velha, afinal, era hora de crescer, dar um passo adiante. Sentia que seria outro, e sua memória seria uma brincadeira de broche para algum deus criança que vagueia pelo Universo.

Mas uma chuvinha iria bem para acompanhar. Esse clima maluco de Brasília. Não era agosto ou setembro, mas dava para a cabeça doer de tanto sol. De repente alguém o abordou. Era uma voz angelical e sorridente. Voz de atriz. “Ei, bobão, eu cheguei ontem, sabia?”, ela disse. Ele olhou para trás.

- Maria?

Ela estava lá, com a mesma cara de palhaça, boa, infantil e mulher tudo ao mesmo tempo. Seis meses na França não mudam muito as pessoas, mas havia algo de diferente nela. Ela se aproximou e o abraçou. Ele largou a bicicleta e retribuiu. As formigas se agitaram com o guidom que derrubou a entrada do formigueiro. Uma brisa fresca varreu o lugar inteiro. O vento ficou mais forte. Nuvens tomaram o céu enquanto os carros passavam sem respeitar os pardais de trânsito. Um chuvisco fino começou a cair. Tudo era igual, só que era diferente.

- Podemos conversar, gato?
- Claro!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Bom dia, boa tarde, boa noite e boa sorte

Seria engraçado se eu te mandasse um e-mail cheio de desaforos absurdos e ofensivos. Se isso acontecesse, ele atingiria a pessoa, no caso você, daria aquele prazer mórbido de ofender os outros, que eu não gosto de sentir, convenhamos, e ao mesmo tempo seria como se eu não tivesse mandado, já que você simplesmente evaporou como um perfume. Bonito isso, né? Não tão bonito quanto sua atitude. Sabia que as pessoas perguntam por você? Sentem sua falta? Quantos anos vc tem? Parece que uns três, no máximo. Você simplesmente desapareceu como se tivesse esse direito. E aquela história do Pequeno Príncipe, de ser sempre jovem, responsável pelo que cativa, etc e tal? Muita coisa mudou por aqui. Sei que você não vai responder isso como eu gostaria, simplesmente por falta de coragem, porque você é uma medrosinha, que se esconde atrás de filmes e nomes de artistas para fazer de conta que está com as pessoas. Muta gente deve ter precisado de você nos últimos tempos. Não é o meu caso, mas resolvi falar por elas. Sou auto-suficiente, esqueceu? Valeu mesmo. Uma menina fraca e assustada, que aposta suas fichas em relacionamentos amorosos? Brincadeira. Desculpe o desabafo. Esperava mais de você. Sei até que você tem mais poder, mas desse jeitinho que você age, sumindo do mundo há anos, não posso esperar muito. Você ainda tem amigos? Tem alguém para sair, conversar, desabafar? Uma galera pra trocar idéias e rir até? Tem alguém que te dê apoio quando as coisas vão mal com o namorado? Porque nenhum namoro é perfeito, né? Na minha opinião, inclusive, isso não é requisito de felicidade, mas cada um com seu quadrado. Só acho que você não devia ter sumido. É uma atitude que causa preocupação, que dá saudade, que traz infortúnio e gera repúdio. Quem é você? Quem disse que podia se aproximar? Por que sumiu? Acho que vou ficar com as dúvidas, não é mesmo? Mas tudo ok. Se resolver engolir a pedra da covardia, desabafar, xingar ou qualquer outra coisa, saiba que ainda te escuto, embora, e com razão, muita gente não faça mais isso depois do seu "misterioso" sumisso. Bom dia, boa tarde, boa noite e boa sorte.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Astrofísica

Um filósofo e uma artista plástica conversavam amigavelmente na Piazza Della Signoria, em Firenze, na Itália. Eram turistas e foram apresentados por amigos em comum em um coincidente encontro entre os grupos. Acabaram se vendo juntos, diante das estátuas greco-romanas da esplanada, enquanto falavam sobre a vida e sobre o que os motivava. Ele, de olhos verdes, jaqueta jeans, guia de visitas debaixo do braço, cabelos curtos, negros, com uma protuberante careca no cocuruto, brasileiro, estava mais empolgado. Ela, portuguesa, prima de um amigo do primo do cunhado do brasileiro, com cabelos loiros, olhos negros, mais baixa e mirrada, com casaco verde e blusa vermelha, de saia preta até o joelho e com frio nas pernas, ouvia mais, e se encantava com aquele terreno fértil que era a mente do homem que encontrara. Sentaram-se no café da praça para conversar, enquanto os grupos se dispersavam em direção à Ponte Vecchio.

- Pres’tenção... A velocidade média do som é de 340 metros por segundo, isto é, 1.224 quilômetros por hora.
- Sei...
- A da terra é de 108.720 quilômetros por hora, mais ou menos. O que quer dizer cerca de 88 vezes a velocidade do som.
- Ah! O Mach, não é isso? Caramba, seria Mach 88. Seria quebrar 88 vezes a barreira do som.
- É! E tem um caça, o Mikoyan-Gurevich, é o MiG-25, que vai a uma velocidade um pouco acima do Mach 3. Não sei se ainda é, mas já foi um dos mais rápidos...
- Deixa eu ver... Isso dá, eu acho, não sei se os cálculos estão certos, mas dá 3.672 quilômetros por hora, calculados em um guardanapo.
- Você fala português quase igual aos brasileiros.
- Eu morei lá um tempo. Em Brasília Dos cinco aos dez anos mais ou menos.
- Eu sou de São Paulo, mas morei em Brasília, e só nos trombamos na Piazza Della Signoria... Engraçado. Mas então, o caça mais veloz não chega nem perto da velocidade do movimento de translação da terra em torno do sol. E uma bala de fuzil, sei lá de que tipo, uma vez me disseram, sai da arma a aproximadamente 900 metros por segundo, o que deve dar, em quilômetros por hora o equivalente a 3240.
- Nossa! Quase a velocidade de um MiG...
- Mas não vemos a bala, e vemos o Mig, por causa do tamanho dele, assim como achamos que o Sol se desloca devagarzinho no céu, enquanto, na verdade, giramos bem rápido em torno dele. Agora imagine você, um objeto com massa equivalente a 6 sextilhões de toneladas a 108.720 e poucos quilômetros por hora por aí, passeando. Acho que se ele tivesse o tamanho de uma cadeira, por exemplo, não sei se conseguiríamos vê-lo. Uma esfera que pese 3 quilos, na velocidade de translação da terra se chocaria contra um muro com uma força de 542160 Newton, eu acho. Essa é a Terra navegando ao redor do Sol. E olha, seis sextilhões é um número seis seguido de 21 zeros! E a velocidade da Terra em metros por segundo é de 30.200.194.
- Cruzes! Quanto número... Mas pode continuar, estou acompanhando... Uma pêra com massa equivalente a 6 sextilhões de toneladas a 30.200.194 metros por segundo, uma velocidade que não conseguimos imaginar.
- Ainda não sei direito aonde vou chegar. Até porque essa conversa está viajando a uma velocidade muito alta.
- Concordo...
- Vamos mais longe então... A velocidade de rotação da Terra, medida na linha do Equador, é de 465 metros por segundo. E para entrarmos em órbita, precisamos alcançar uma velocidade de 28.000 Km/h, no meu ônibus espacial.
- No seu ônibus, sei...
- Muito mais rápido que um MiG ou que a bala de um fuzil, convenhamos.
- Certo.
- E a Lua realiza seu movimento de translação em torno da Terra a uma velocidade de 3600 km/h, e demora pouco mais de 27 dias para completar sua órbita ao redor do nosso planeta, sendo que o nosso diâmetro é de 12.756,2 quilômetros. Se nós fossemos o Sol da Lua, o ano seria bem curto, mais rápido que um mês para os terráqueos.
- Para os terráqueos...
- Do que você está rindo?
- Não estou caçoando, estou achando graça. É interessante isso tudo.
- É que me empolguei. Agora veja isso: um ano em Marte equivale mais ou menos a um ano e onze meses na terra, e lá, teríamos quase a metade de nossa idade.
- A metade da idade! Gostei!
- Mulheres... Você teria quanto, 12?
- É, mas seria do jeitinho que sou agora.
- E mais uma coisa, a luz viaja a uma velocidade de 300.000 quilômetros por segundo. Não faço idéia de quanto seja isso em quilômetros por hora, mas dá para ir à Lua várias vezes em pouquíssimo tempo, já que ela está a 384.400 quilômetros de distância. Dizem que é o que dirigimos em toda uma vida.
- Não brinca! Dá para viajar no tempo! Você olharia para trás e veria sua imagem olhando para trás. Seriamos energia pura. E a velocidade da luz em quilômetros por horas, vejamos... Pelos meus cálculos, seria 1.079.913.606,91 quilômetros por hora.
- Isso é o que viajamos em um vinte e quatro avos do dia. Somos energia pura. Somos partes condensadas de uma infinitamente espessa nuvem de átomos galácticos. E sequer temos noção disso. Existem mais espaços vazios entre os nossos átomos que espaço preenchido por eles em nossa massa e na de qualquer objeto. Sendo assim, por que diabos não atravessamos paredes?
- Ta legal, essa foi a cantada mais legal que já ouvi...
- Isso porque eu ainda não comecei a comparar esses números com os mitos e com essas fantásticas estátuas.
- Que lugar bonito, que cidade maravilhosa. Em pensar que isso tudo é um pozinho do universo.
- É solitário.
- É mas estamos juntos. Como dois corpos celestes de anos luz de diferença em suas origens, que se chocam energicamente.
- Mas na hora do choque, parece que você sofre uma influência gravitacional de algum planeta da consciência, e desvia...
- Mas ainda estamos sobre a influência de nossas órbitas. Talvez mais tarde...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Um suspiro antes da queda

15 de agosto de 2014, 23h46, redação do Correio de Brasília.

- Se for assessor empurrando pauta vou mandar para aquele lugar! Peraí que já atendi aqui... Fabrício Gonzaga.
- Oi lindo!
- Maren?!
- Queria ouvir sua voz.
- Já falei para não ligar na hora do fechamento! Ta corrido pacas aqui, e depois você fica achando que não te trato bem...
- Desculpe... Eu só queria saber se você vem...
- Não... Esquece. Desculpe... Acho que sim... Peraí. É que às vezes fica puxado aqui, e eu perco a cabeça. É bom ouvir sua voz. Pode falar...
- Como ta aí?
- Tá foda. Tô com aquela pauta do MP até hoje...
- Caralho, Fabrício! Cadê a porra do info-gráfico?! Já mandou os textos pro pessoal? Não chegou ainda.
- Tá com a arte! Já devia estar pronto. A matéria já foi pra gaveta, é só puxar aí! Então, o que você ia dizendo? Como foi o dia?
- Foi tranqüilo. Ajeitei as coisas para a publicação, os fotógrafos mandaram os arquivos de imagem. Vai ficar bonito. Quero te mostrar a formatação hoje a noite. Se você puder passar aqui em casa... Eu aproveito e te mostro... outras coisas... Posso te esperar? O que acha?
- ...
- Fabrício? Ta aí?
- ...mostrar as fotos do livro... Tô ouvindo, linda. É que estou lendo um e-mail aqui. Ca-ra-lho! Vou ter que alterar a matéria pela quarta vez, amore. Você acredita? Os caras não se decidem... Odeio trabalhar com o Ministério Público. Uma semana com essas matérias de merda que mudam cinqüenta vezes por dia na hora do fechamento!
- Mudei um pouco o lead do texto. Pode mandar pra paginação? Pode mandar pra paginação, Fabrício?! Fabrício?!
- Não, chefe! A assessoria mandou um posicionamento novo. Vamos ter que mudar a retranca. E tem uns dados novos também. Eles conseguiram os valores dos prejuízos do governo com o patrimônio público destruído.
- Como é que é? Porra! Que merda! Vou te mandar a matéria de volta então...
- Tá. Mas e então, amore, você conseguiu as fotos e deve lançar o livro? Legal! Quando posso ir aí para ver? Aproveitava para te dar um beijinho.
- Esse jornal não fechou até agora?! Cadê a arte pessoal?! Se vocês não fizerem alguma coisa a respeito vou derrubar a porra da matéria! Não quero saber!
- Eles mudaram tudo. Já tava tudo pronto... Não é culpa nossa, chefe!
- Pô, Fabrício, não ta me ouvindo, né? To te chamando pra vir aqui pra casa hoje e você não ta me ouvindo.
- Desculpa, o editor chefe tava falando com a gente aqui. Não ta dando pra ouvir tudo, mas fala assim mesmo. Ta movimentada a redação, linda... Acho que vou pirar... Não vejo a hora de terminar a pós e dar aula. Largar de vez esse mundo de jornal diário. Chefe, o pessoal da arte mandou o infográfico para a gaveta! Devolve lá que eu vou alterar o último tópico e já mando o texto para eles!
- Já devolvi!
- Mas então, você vem hoje? Posso ficar te esperando...
- Putz. Peraí chefe... Ta aqui. Mudei só uma parte do texto. Não precisou mudar tudo. Só troquei uns dados ali e inseri um parágrafo.
- Fabrício?
- Vou dar uma cortada então. Já mandou o texto para a arte?
- Fabrício?
- Já mandei. Peraí... Oi?
- Tem certeza que eles não pegaram esses dados?
- Lindo, ta me ouvindo?
- Tenho. A assessora me garantiu que é exclusivo. Pode por na capa que vai ser furo.
- Fabrício!?
- Oi!
- E aí, você não respondeu, vem ou não vem?
- Vou, mas chego tarde. Aliás, melhor não. Amanhã o dia vai ser tranqüilo. Amanhã eu vou. Aqui, chefe, te encaminhei o e-mail.
- Recebi aqui. Já estou lendo.
- Linda? Alô? Porra, desligou.
- Era a mulher?
- Minha namorada... Cacete. Vou acabar levando um pé na bunda.
- Amanhã você vem só na parte da manhã. Aproveita e junta a tarde com o final de semana. Olha só isso aqui! Brasília é um ovo de codorna mesmo... Essa assessora é filha da minha namorada de faculdade...
- ...
- E aí, ele vem?
- Não, não vem.
- Bom, sobra mais tempo pra nós.
- É...
- Não fica assim, depois você fala com ele...
- Só acho que isso não é direito. Estou me sentindo uma escrota.
- Ele não é pra você. Além do mais, está trabalhando contra nós. Senta aqui do meu lado... Quer falar sobre isso?
- Não. Vamos mudar de assunto... Mmmmmm...
- Vem cá, deixa eu tirar isso...
- ...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

48 graus

Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1992.

- Nome?
- Maria.
- Quantos anos você tem?
- 19.
- Quanto você pesa?
- 56 kg.
- Tipo sanguíneo?
- “A” negativo.
- Certo... Seu diagnóstico é febre. Se importa de tirar a roupa?
- Não.
- Tire a blusa e desabotoe a calça. Isso. Sente-se na maca, por favor. Qual é o seu problema, Maria?
- É essa febre, doutor, que nunca passou.
- Vamos ver isso.
- ...
- ...
-...
- 48 graus! Você parece tão bem. Vamos ver isso? Dói aqui?
- Não.
- E aqui, sente alguma coisa?
- Normal.
- Vamos ver os seus olhos... Certo.
- Me sinto bem, doutor.
- Uma febre nessa altura pode causar sérios danos ao seu corpo, aos seus neurônios. Nunca ouvi falar de alguém que sobrevivesse até essa temperatura.
- É minha temperatura normal. Nunca me atrapalhou. Mas, socialmente, incomoda bastante. Não sei o que fazer. Todo mundo pensa que eu estou doente, que eu sou doente. Já fui a vários médicos, que tentaram várias coisas...
- Exame de sangue?
- Esta aqui. Espere. Aqui. Pronto.
- Umhum... E de urina?
- Este.
- Você fuma?
- Fumo e bebo.
- Com que freqüência mantém relações sexuais?
- Não sei. Semanalmente, acho. As vezes mais, as vezes menos...
- De fato, seus exames não indicam nada. Já os fez quantas vezes.
- Várias. Nem sei.
- E o que você sente?
- Não sinto nada. Sinto que minha pele está quente. Mas não sinto calor. Nem sinto muito frio também. Para mim é normal, como eu te falei. Mas meu corpo é muito quente.
- Em todo o corpo? Ou tem alguma parte que é mais fria?
- Em todo o corpo.
- Já teve alguma doença?
- Só reação alérgica. Camarão. Não posso comer camarão.
- Levante-se, venha para minha mesa. Não sei como te dizer isso, mas você é um caso a ser estudado. Ninguém vive muito com essa temperatura, mas você parece ótima. Seus exames não apresentam nada. Não há muito que fazer.
- Obrigada doutor. Queria apenas me livrar disso. Ser normal.
- Você é normal. É uma garota inteligente. O que faz da vida?
- Sou atriz.
- Minha mãe também era atriz.
- ...
- Acho que sei qual é o seu problema.
- Sério? Qual?
- Você sente isso desde que nasceu?
- Sim.
- É atriz há quanto tempo?
- Isso importa?
- Talvez.
- Cinco anos.
- Então é isso. Só pode ser isso.
- O que?
- Você é uma estrela, mas não brilhou ainda. Dedique-se um pouco mais a sua profissão. Tenho certeza que isso vai mudar quando colocar essa energia para fora. Qual sua próxima peça?
- O Pequeno Príncipe. Serei o aviador.
- É um bom papel. Talvez te ajude. Aqui está a receita...
- 15 horas de teatro por dia? Ser platéia uma vez por semana? E esse último, não entendo a letra.
- Não tem problema. Quando você começar a brilhar e sua temperatura baixar, vai acontecer mesmo.
- O que é?
- Dê tempo ao tempo. Vá brilhar, estrela. Sorte sua eu ser filho de atriz, não?
- Obrigada, doutor. Vou fazer como o senhor mandou.

Maria saiu do consultório achando estranho, mas já havia feito tanta coisa, que não se importou em cumprir as tarefas. Além do mais, ela gostava tanto de teatro, que não faria a menor diferença. Ela se dedicou muito, com afinco. Esqueceu-se da temperatura de seu corpo, que nunca baixou, e foi feliz. Um certo dia, em Brasília, em visita ao Complexo Cultural da República, flanando, pensou: “O que faço é a lente que me faz ver o mundo. Sou o que faço, faço o que sou. Algumas lentes convergem o sol. Deve ser o caso da minha. E meu sol é o personagem por trás do personagem...”