Quando entrei no quarto de meu avô, o enigmático senhor Flory, naquela hora da madrugada, senti exatamente o mesmo cheiro que sentia quando criança, ao entrar na casa velha de Lavras, no sul de Minas Gerais. Todas aquelas madeiras antigas e rijas, recobertas de pó. O cheiro emanava da cama de meu falecido avô, e da cadeira quebrada encostada ao lado do estrado, que também estava encostado na parede. O plástico velho do assento se dobrava à fragilidade das juntas quebradas. Sentei nela aos três anos e eram fortes como um jovem à época, mas não resistiram aos solavancos e meu crescimento e do meu irmão, e do meu outro irmão, e do outro, e do outro, e do outro. Tudo aquilo me lembrava a cidade natal de meu pai. O quarto cheirava a alguma coisa que só então reconheci. Era o mesmo cheiro que Aureliano Babilônia deve ter sentido ao ler as últimas páginas dos pergaminhos de Melquíades, pouco antes da cidade dos espelhos, ou das miragens, ser varrida pelo vento. Era exatamente o cheiro da ventania que leva tudo o que existe e que se transforma em pó. Aquele era o cheiro da passagem do tempo, e nunca me dei conta. Literalmente debaixo do meu nariz. Ai de mim, que queria ser Peter Pan, que queria voar, lutar contra piratas, beijar Wendy e não envelhecer nunca, enigmático senhor Flory. Quando eu nasci você já era velho. Parece, em minha existência, sempre ter sido velho. As histórias da sua juventude remontam a Força Aérea Brasileira nos meados da Segunda Guerra Mundial. A mim, dessa triste batalha, só restam livros de histórias e relíquias de museus. Em contrapartida você nos deixou móveis antigos e uma folha de jornal. Meu avô é a Segunda Guerra Mundial. Brasileiros versus fascistas. Naquela hora olhei para os lençóis dependurados no varal do lado de fora, iluminados pela luz que fugia da janela, e imaginei um fantasma ou uma criatura maligna e bela entre os panos, me observando sem que eu pudesse percebê-la. Ninguém acredita, mas ela está mesmo lá. O véu sempre esconde a verdade. O véu da personalidade, o véu do tempo, o véu da noiva, o véu de Isis. Então caminhei apressado. Não mais que quatro passos para sair daquele quarto vazio que outrora, antes da queda do enigmático senhor Flory, era quase que como um templo, onde eu, neófito da vida, acólito da inexperiência, só entrava se autorizado, e mesmo assim, em silêncio, e não me demorava, padrinho. Estava tomado pela angústia. O sono não me vinha. Sentia vontade de fumar, de caminhar pela rua, de me transformar em um fantasma. Subia e descia as escadas. Enigmático senhor Flory, o senhor se deitou sem permissão. Ainda me lembro que meus lábios tocaram os seus e soprei meu alento para dentro de seu peito, imaginando que isso pudesse te trazer de volta. Ainda ouvi um gemido ao pressionar teu tórax em busca das batidas de teu coração, como quem cava à procura de um tesouro. Coisa que nunca contei a ninguém. Seria apenas um reflexo físico do ar que fugia de teus pulmões mortos mas, mesmo assim, pensei que fosse voltar comigo. Desde então o furacão voltou a ficar forte, e forte, e forte, e só agora começo a compreender que a tempestade que arrasa minha vida é esta mesma do Tempo, que vem soprando, matando e pulverizando tudo, cada vez mais rápida. Quisera eu ter olhos para todos os livros e imaginação para todos os contos. Mas sou só um homem atrasado que anda pela vida. Cheguei atrasado. Quase um mês depois do previsto, acho. O velho era o homem que sempre fora velho. Pena nunca ter alcançado suas manifestações, nunca ter subido alto o suficiente para ver, ainda que de longe, a luz dos seus pensamentos, para que eles iluminassem os meus agora. Um coração bate no meu peito. Tu-tum, tu-tum, tu-tum. O ar entre e sai dos meus pulmões. Meus nervos trabalham incessantemente, 24h por dia. Enigmático senhor Flory, foi assustador te ver deitado no chão, e não em sua cama, com os olhos vazios e esbugalhados, e a boca aberta e sem dentes. Quem esperava? O tempo. A morte. Castañeda sabe que ela está à nossa esquerda, a um braço de distância, esperando o último segundo para tocar nos nossos ombros. Se olharmos de relance e percebermos uma sombra, é ela. Tudo é passageiro, tudo é ventania, tudo é Macondo. Deus, leve-me embora de Macondo. Então chove e chove e chove. Volto à realidade. Sento diante da máquina de escrever e escrevo. A morte, bela e doce, fuma sentada à minha janela. Que pernas. Finalmente fumo um cigarro. Não sei ao certo o que é real e o que não é. Parece que ainda ouço aquelas palavras ao telefone. Giro o disco para chamar alguém. Parece que atravessei a última linha, em silêncio, como o soldado que caminha nas terras inimigas, mas sempre com a fronteira ao alcance da vista, como um navio português que contorna a África a caminho das Índias, sempre com a costa à esquerda. Respiro aliviado. Me sinto mais tranqüilo. Parece. Apenas parece. Enigmático senhor Flory, que sou eu, de onde venho e para onde vou?
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Eu não existo
Quando entrei no quarto de meu avô, o enigmático senhor Flory, naquela hora da madrugada, senti exatamente o mesmo cheiro que sentia quando criança, ao entrar na casa velha de Lavras, no sul de Minas Gerais. Todas aquelas madeiras antigas e rijas, recobertas de pó. O cheiro emanava da cama de meu falecido avô, e da cadeira quebrada encostada ao lado do estrado, que também estava encostado na parede. O plástico velho do assento se dobrava à fragilidade das juntas quebradas. Sentei nela aos três anos e eram fortes como um jovem à época, mas não resistiram aos solavancos e meu crescimento e do meu irmão, e do meu outro irmão, e do outro, e do outro, e do outro. Tudo aquilo me lembrava a cidade natal de meu pai. O quarto cheirava a alguma coisa que só então reconheci. Era o mesmo cheiro que Aureliano Babilônia deve ter sentido ao ler as últimas páginas dos pergaminhos de Melquíades, pouco antes da cidade dos espelhos, ou das miragens, ser varrida pelo vento. Era exatamente o cheiro da ventania que leva tudo o que existe e que se transforma em pó. Aquele era o cheiro da passagem do tempo, e nunca me dei conta. Literalmente debaixo do meu nariz. Ai de mim, que queria ser Peter Pan, que queria voar, lutar contra piratas, beijar Wendy e não envelhecer nunca, enigmático senhor Flory. Quando eu nasci você já era velho. Parece, em minha existência, sempre ter sido velho. As histórias da sua juventude remontam a Força Aérea Brasileira nos meados da Segunda Guerra Mundial. A mim, dessa triste batalha, só restam livros de histórias e relíquias de museus. Em contrapartida você nos deixou móveis antigos e uma folha de jornal. Meu avô é a Segunda Guerra Mundial. Brasileiros versus fascistas. Naquela hora olhei para os lençóis dependurados no varal do lado de fora, iluminados pela luz que fugia da janela, e imaginei um fantasma ou uma criatura maligna e bela entre os panos, me observando sem que eu pudesse percebê-la. Ninguém acredita, mas ela está mesmo lá. O véu sempre esconde a verdade. O véu da personalidade, o véu do tempo, o véu da noiva, o véu de Isis. Então caminhei apressado. Não mais que quatro passos para sair daquele quarto vazio que outrora, antes da queda do enigmático senhor Flory, era quase que como um templo, onde eu, neófito da vida, acólito da inexperiência, só entrava se autorizado, e mesmo assim, em silêncio, e não me demorava, padrinho. Estava tomado pela angústia. O sono não me vinha. Sentia vontade de fumar, de caminhar pela rua, de me transformar em um fantasma. Subia e descia as escadas. Enigmático senhor Flory, o senhor se deitou sem permissão. Ainda me lembro que meus lábios tocaram os seus e soprei meu alento para dentro de seu peito, imaginando que isso pudesse te trazer de volta. Ainda ouvi um gemido ao pressionar teu tórax em busca das batidas de teu coração, como quem cava à procura de um tesouro. Coisa que nunca contei a ninguém. Seria apenas um reflexo físico do ar que fugia de teus pulmões mortos mas, mesmo assim, pensei que fosse voltar comigo. Desde então o furacão voltou a ficar forte, e forte, e forte, e só agora começo a compreender que a tempestade que arrasa minha vida é esta mesma do Tempo, que vem soprando, matando e pulverizando tudo, cada vez mais rápida. Quisera eu ter olhos para todos os livros e imaginação para todos os contos. Mas sou só um homem atrasado que anda pela vida. Cheguei atrasado. Quase um mês depois do previsto, acho. O velho era o homem que sempre fora velho. Pena nunca ter alcançado suas manifestações, nunca ter subido alto o suficiente para ver, ainda que de longe, a luz dos seus pensamentos, para que eles iluminassem os meus agora. Um coração bate no meu peito. Tu-tum, tu-tum, tu-tum. O ar entre e sai dos meus pulmões. Meus nervos trabalham incessantemente, 24h por dia. Enigmático senhor Flory, foi assustador te ver deitado no chão, e não em sua cama, com os olhos vazios e esbugalhados, e a boca aberta e sem dentes. Quem esperava? O tempo. A morte. Castañeda sabe que ela está à nossa esquerda, a um braço de distância, esperando o último segundo para tocar nos nossos ombros. Se olharmos de relance e percebermos uma sombra, é ela. Tudo é passageiro, tudo é ventania, tudo é Macondo. Deus, leve-me embora de Macondo. Então chove e chove e chove. Volto à realidade. Sento diante da máquina de escrever e escrevo. A morte, bela e doce, fuma sentada à minha janela. Que pernas. Finalmente fumo um cigarro. Não sei ao certo o que é real e o que não é. Parece que ainda ouço aquelas palavras ao telefone. Giro o disco para chamar alguém. Parece que atravessei a última linha, em silêncio, como o soldado que caminha nas terras inimigas, mas sempre com a fronteira ao alcance da vista, como um navio português que contorna a África a caminho das Índias, sempre com a costa à esquerda. Respiro aliviado. Me sinto mais tranqüilo. Parece. Apenas parece. Enigmático senhor Flory, que sou eu, de onde venho e para onde vou?
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Querido Caronte,
José Saramago
Saramago é autor de obras como Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Intermitências de Morte. As obras que compôs inspiraram contos e poesias deste blog. Morto por falência múltipla dos órgãos, na manhã dessa sexta feira, aos 87 anos, a literatura mundial perdeu um grande nome. Como todos os grandes homens, a profundidade do escritor talvez só seja realmente notada muitas décadas após o minuto exato desta publicação. Exijo, barqueiro, que transporte-o com as honras que ele merece. Que este epitáfio possa servir-lhe como moeda para a travessia. Leve em conta que poucos enxergaram o ser humano como ele, nesses tempos de cegueira branca e falta de lucidez. Segue o discurso proferido pelo escritor em 1997, quando recebeu o título doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB). O texto também está no site de universidade. Viva uma nova literatura! Ursos e Ornitorrincos a todos! Meu mais sincero adeus.
O Caderno de Saramago
"Magnífico Senhor Reitor da Universidade de Brasília, Ilustres Professores, Estimados Alunos, Minhas Senhoras, Meus Senhores
Decidiu generosamente a Universidade de Brasília, sob proposta do seu Departamento de Teoria Literária e Literatura, conceder-me o grau de Doutor «Honoris causa», por pensar haver no trabalho literário que venho realizando méritos suficientes para tal, o que, obviamente, não me compete a mim confirmar ou pôr em dúvida, limitando-me tão-só a relativizá-los, não por uma modéstia congênita ou por uma deliberada prudência táctica, mas por uma atitude de espírito que já se me tornou em segunda natureza. Autorizo-me porém a crer que se cheguei a este acto com a legitimidade de quem a ele foi expressamente convocado, não me apresento de mãos vazias. Trouxe comigo algum trabalho, alguns livros, idéias, reflexões, o melhor que em uma vida já longa pude ir inventando e fabricando, uma ponte de palavras por onde intento chegar aos meus leitores e onde desejo que os meus leitores me encontrem, com a confiança, deles e minha, de que lá esteja e saiba estar, não apenas o autor, mas a pessoa real, o homem que sou. Não peço mais porque é o máximo que peço.
É conhecido o caso daquele moço que, sem nunca ter tomado aulas de belas-artes ou aprendido de mestres particulares, e não dispondo de melhor ferramenta que um simples canivete, em pouco tempo transformava um toco de madeira bruta no mais acabado e perfeito urso de que rezariam histórias da escultura se fosse objectivo delas ocupar-se de talentos rústicos e paisanos. Aos que se maravilhavam com a rapidez e o jeito, o rapaz respondia invariavelmente: «Não tem nenhuma dificuldade. Agarro na madeira e fico a olhar para ela até ver o urso. Depois é só tirar o que está a mais.» O nosso escultor ingênuo dava-nos, assim, duas lições: a lição da modéstia e a lição da generosidade. Revelava-nos o seu segredo de oficina e ensinava-nos como deveríamos proceder para criar um urso: olhar para onde ele não está e, apenas com o olhar, fazê-lo aparecer.
Mas, ai de nós, não há perversidade maior que a dos ingênuos. Este amável moço, tão prestante em explicar-nos como fez não deixou que lhe saísse da boca uma única palavra sobre como se faz. O urso está ali, vemo-lo, mas entre ele e as nossas mãos há uma muralha de madeira fechada, com nós duríssimos, veios intratáveis, traiçoeiras maciezas da fibra: é por de mais evidente que será preciso muito engenho e arte para abrir caminho. A arte, afinal de contas, não é fácil, o rapaz dos ursos esteve a divertir-se á nossa custa.
Contudo, bem descuidado seria quem se atrevesse a jurar que no interior de cada pedaço de madeira não há um urso à nossa espera. Há, e há sempre. Ainda que não consigamos vê-lo distintamente, ao menos devemos ser capazes de adivinhá-lo, de intuí-lo, aparece-nos ao longe como uma luz instável e lenta, um vago luzeiro, tão vago que mal chega a iluminar-se a si mesmo.
Assim foi como me apareceu também o que sobre uma presumível relação entre o antigo canto e um novo romance aqui me propus dizer-vos. Julguei perceber-lhe os contornos, tornar-se nítido e preciso o vulto, cheguei mesmo a pensar que me bastaria estender a mão e tomá-lo firme, mas no momento triunfal em que vou exclamar: «Minhas senhoras e meus senhores, aqui está o urso», verifico que tudo não era mais que ilusão e ludíbrio, e apenas tenho para apresentar isto que aqui se vê, um tronco cortado, um cepo, uma raiz torta. E outra vez a luz começa a pulsar, como um coração que chama: «Tirem-me daqui.»
Disse canto, disse romance, e essa relação, esse percurso, essa viagem por espaços, mundos e tempos, desde os poemas homéricos a Marcel Proust ou James Joyce, passando pelas Mil e Uma Noites, pelas epopéias indianas, pelas parábolas dos livros sagrados, pelo Cântico dos Cânticos, pelas fábulas milésicas, pelo Asno de Ouro, pelas canções de gesta, pelos ciclos de Roldão, da Demanda do Graal, de Alexandre, de Robin Hood, pelos Romances da Rosa e da Raposa, por Gargântua, pelo Decameron, por Amadis de Gaula, pelo Quixote, e também por Gulliver e Robinson, por Werther e Tom Jones, por lvanhoe e Cinq-Mars, pelos Três Mosqueteiros, pela Nossa Senhora de Paris, pela Comédia Humana, pelas Almas Mortas, pela Guerra e Paz, pelos irmãos Karamazov, pela Cartuxa de Parma, pelos Maias, por Braz Cubas, até agora, até aqui - essa viagem começou um dia, em voz e em grito, à sombra de uma árvore, ou no interior de uma gruta, ou num acampamento de nómadas à luz das estrelas, ou na praça pública, ou no mercado, e depois houve alguém que escreveu o que tinha ouvido, e a seguir veio alguém que escreveu sobre o que tinha sido escrito antes, ouvindo sempre, escrevendo sempre, dispondo palavras em silêncio, infinitamente repetindo, infinitamente variando.
Importa-me pouco a mais do que provável incoincidência desta visão lírica do trânsito histórico de narrativas entoadas, de melopéias, para uma escrita organizada e disciplinada, obediente a regras, a preceitos, a normas, a convenções que nunca o serão menos pelo facto de serem transitórias, substituídas por outras convenções, condenadas por sua vez em lhes chegando o tempo. A evocação que aí deixei serviu apenas para ilustrar, tão persuasivamente quanto fui capaz, o que teria sido a passagem de um canto narrativo à narração escrita. Bem mais difícil me será propor, como hipótese plausível, que o gênero literário a que damos o nome de romance, tendo chegado ao extremo do arco que, como imaginário pêndulo, traçou, se lança agora, retornando, pelo caminho por onde veio, até chegar outra vez ao canto primordial, donde teria de recomeçar a viagem já conhecida, galgando mais uns quantos séculos para o futuro.
Não sou tão desprovido de senso comum. Dinâmica e cinética são programas de um diferente foro do conhecimento, e a literatura, se infinitamente repete, como já foi dito, também infinitamente varia, como foi dito já. Visto o que, no ponto em que nos encontramos, é irresistível recordar aquele Pierre Menard, autor de um Quixote literalmente idêntico ao de Cervantes, consoante nos informa Jorge Luis Borges nas suas Ficciones, e que, tendo repetido, palavra por palavra, o imortal «Manco de Lepanto» (assim o designamos para não lhe repetir o nome, sina de que por fortuna escapou Camões, pois a ele ninguém, até hoje, ousou chamar «Zarolho de Ceuta»), diz, muitas vezes, coisas bem diferentes, não mais do que por diferentes serem os modos de as entender, neste século XX em que ainda estamos e naquele século XVII em que nunca poderemos estar. Este exemplo mostra-nos que qualquer repetição exacta é impossível e que, na sua viagem de retorno às origens, ao outro extremo do arco, o pêndulo, ainda que percorrendo uma identidade reconhecível, iria deixando atrás de si algo como uma alteridade coincidente, se se pode admitir uma tão grosseira contradição em termos.
Ora, se ao romance não é permitido fazer nenhum percurso inverso, se Pierre Menard, tendo fiel e escrupulosamente copiado o Quixote, acabou por escrever outro livro, como alcançaríamos nós de novo o canto, o desejado canto, e, se lá chegássemos, que canto seria esse que a nossa boca formaria, ainda que fosse igual a música e fossem iguais as palavras? Os homéridas não têm mais lugar neste mundo, o tempo é, de todas as coisas, a única que não se pode emendar. Que restará, então? Como iremos inventar o canto novo, esse a que me estou obrigando? E com que pertinência me proporia eu, se essa fosse de facto a minha intenção, anunciar o advento de novas formas literárias, sem cuidar de saber se isso agradaria ou conviria a quem as tivesse de viver e praticar? Chamar Homero aos nossos dias, «homerizar» o romance, terá sentido? Estas perguntas, em si mesmas, e pelo ordem em que se apresentam, não são inocentes. Autorizam-me, enfim, a trocar o geral pelo particular, penetrando no único universo de que posso falar com a legitimidade que dá o conhecimento de causa, isto é, no meu próprio e pequeno mundo, o do romance que faço, o seu porquê e o seu para quê.
Comecemos por considerar o tempo. Não este em que nos encontramos agora, não aquele outro que foi o do autor quando escrevia o seu livro, mas o tempo contido e encerrado no romance, e que tão-pouco é o das horas ou dias que levará a ser lido, ou uma referência temporal implícita no discurso ficcional, muito menos um tempo explicitado fora do narrativa, por exemplo, o título que recebeu, caso de Cem anos de solidão ou de Vinte e quatro horas na vida duma mulher. Falo, sim, de um tempo poético, feito de ritmos, de suspensões, um tempo simultaneamente linear e labiríntico, instável, movediço, tempo capaz de criar as suas próprias leis, um fluxo verbal que transporta uma duração e que uma duração por sua vez transporta, fluindo e refluindo como uma maré entre dois continentes. Este tempo, repito, é o tempo poético, usa todas as possibilidades expressivas do andamento, do compasso, da coloratura, é melismático e silábico, longo, breve, instantâneo. De um tempo assim entendido tem sido minha ambição que vivam as ficções que invento, consciente de que estou querendo, mais e mais, aproximar-me da estrutura de um poema que, sendo expansão pura, se mantivesse fisicamente coerente.
Afirmam músicos e musicólogos que uma sinfonia, hoje, é algo impossível, como o será também, mas isto digo-o eu, esculpir um capitel coríntio segundo os preceitos clássicos. Claro que qualquer pessoa, desde que dotada de habilidade suficiente, estará em posição de contrariar uma tal interdição de princípio, compondo de facto a sinfonia ou esculpindo de facto o capitel: o que dificilmente poderá é levar-nos a acreditar que, fazendo-o, estaria a responder a uma necessidade autêntica, tanto no plano da sua criação quanto no plano da nossa fruição. Ora, quem sabe se não deveríamos nós próprios confrontar-nos com a responsabilidade de aplicar a mesma sentença ao romance, afirmando, por exemplo, que também ele se tornou impossível na sua forma por assim dizer paradigmática, prolongada até hoje apenas com variações mínimas, só muito raramente radicais e logo assimiladas e integradas no corpo tópico, o que vem permitindo, com a graça de Deus e a benção dos editores, que continuemos a escrever romances como comporíamos sinfonias bramhsianas ou talharíamos capitéis coríntios.
Mas este romance que assim pareço estar condenando contém acaso em si, e já nos seus diferentes e actuais avatares, a possibilidade de se transformar no lugar literário (propositadamente digo lugar, e não gênero) capaz de receber, como um grande, convulso e sonoro mar, os afluentes torrenciais da poesia, do drama, do ensaio, e também da filosofia e da ciência, tornando-se expressão de um conhecimento, de uma sabedoria, de uma mundivisão, como o foram, para o seu tempo, os grandes poemas da antiguidade clássica.
Porventura estarei caindo num erro de perspectiva, se tenho em conta a crescente e parece que irreversível especialização, já quase microscópica, das aptidões humanas. Não é impossível, porém, que essa mesma especialização, por força de mecanismos ou impulsos de compensação, e talvez como condição instintiva de sobrevivência e de reequilíbrio psicológico, nos leve a procurar uma nova vertigem do geral em oposição às aparentes seguranças do particular. Literariamente, porque só de literatura é que estou falando aqui, talvez o romance possa restituir-nos essa vertigem suprema, o alto e extáctico canto duma humanidade que ainda não foi capaz, até hoje, de conciliar-se com a sua própria face.
E assim concluo. Manejando o meu canivete rombo, aparei e escavei o pedaço de madeira que aqui trouxe. Juro-vos que via o urso antes, via-o perfeitamente, juro-vos que continuo a vê-lo agora. Mas não tenho a certeza - culpa minha - de que o vejais vós. Provavelmente saiu-me a estatueta de um ornitorrinco, esse mamífero desajeitado, com bico de pato, feito de peças soltas de outros animais, desconforme, bicho fantástico - ainda que não tanto quanto o homem. Este que somos quando escrevemos romances, ou os lemos. Interminavelmente.
A última palavra, Magnífico Senhor Reitor, será para expressar, como escritor, mas igualmente como português, o meu profundo reconhecimento pela honra que a Universidade de Brasília me concedeu acolhendo-me entre os seus. Procurarei, em todas as circunstâncias, ser digno dela, não desmerecer jamais do vosso bom juízo, graças ao qual se me abriram as portas desta casa, que a partir de agora considerarei também minha. Muito obrigado."
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Nos braços da W3
Às 6h30 Zaratustra caminhou sobre o telhado, equilibrou-se sobre o muro e pousou com graça no gramado, cortando o jardim verde até o reboque, do outro lado. Entrou na escuridão e se abrigou. Gatos gostam de lugares quentes. Alguém deu a partida no carro e saiu. O sol já ameaçava brilhar forte. O veículo percorreu a Estrada Parque Indústria e Abastecimento, entrou pelo Eixão, que estava fechado, desviou pelo Eixinho W Norte, caminhou por sobre as tesourinhas e escutou 10 minutos de badaladas de sinos da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida. Lá atrás, Zaratustra saiu da penumbra divertindo-se com coisas invisíveis. Cidades satélites, que giram em torno da utopia. O carro desceu para a rodoviária, entrou no Eixo Monumental, passou por debaixo da plataforma, pela entrada da W3, pela Torre de TV, pela Funarte, pelo palácio do Buriti, fez o retorno no Memorial JK, entrou no Setor de Industrias gráficas e estacionou em frente ao edifício do Diários Associados. Jornalistas de plantão já começavam o dia. Ela desceu do carro e acendeu um cigarro. Branca como a neve, como os palácios de Niemeyer, com o cabelo pintado de vermelho, como a terra do planalto central, com os olhos incrivelmente azuis, como o céu da capital, e com os lábios plácidos como um lago. Completamente solitária, como um sonho de Dom Bosco. Ela era um sonho, vivendo entre os monstros da própria criação, contando o tempo perdido, celebrando a estupidez humana, com festa, velório e caixão, seria apenas sua imaginação...* Uma tragada mais longa que a outra, inebriando a alma, tranquilizando o corpo, aquela personificação da cidade, em linhas e curvas tão belas, não tinha motivo para estar ali. Era aniversário da cidade. Tudo poderia acontecer. Seu celular não tocou. Zaratustra saiu de casa para mais uma de suas andanças. Tudo vibrava. A jovem olhou para o próprio pulso. Uma tatuagem dizia W3 Sul, e uma cruz, os traços do arquiteto, tudo preto, como se fosse mal rabiscado. Ela desapareceu na última tragada, deixando o carro aberto e a bolsa sem documentos sobre o capô. Tudo inexplicável. Brasília, incompleta, eu te amo.
* Urbana Legio Omnia Vincit
Bloco das nuvens...
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O tal da filosofia...
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Boemia, justiça e Blogosfera no Poder
Se já não existirem mais blogues, não haverá mais BLOGOSFERA NO PODER, mas a energia que nos une pode continuar lá, se acreditarmos.
Este blogue criado em março de 2003, já teve outro endereço, outro templete, outros textos que foram sumariamente retirados por ânsias e animosidades, já teve, inclusive, outras três redes de amigos blogueiros antes dessa (mas nunca tão bem consolidada e séria para mim), completou seis anos este ano. Nunca teve textos como os que escrevo agora. É um laboratório literário pessoal, e as experiências avançaram com minhas infinitas leituras e filmes que nunca chegarão ao fim. Na cabe colocar uma lista referências. Seria pedante demais. Mas cabe dizer que fui afrontado por “adultos” por diversas vezes, por que deveria ter lido isto ou aquilo antes de me dar ao trabalho de escrever tais e tais coisas, e que me arrisco demais por terrenos pantanosos que desconheço. Querem saber, eu rio da cara do perigo. Além do mais, posso não ter lido toda a obra de Machado, nem O Capital, nem outras tantas obras importantes que quiçá, virei a ler, mas retorno a pergunta aos sábios. Me digam vocês, se já leram as poucas e belas poesias de Yokohare, ou ficaram a admirar suas fotografias? Já leram as fascinantes histórias de Blindado, que ganhou vida pelo imaginário de botas pretas de Afobório? Já se deram ao trabalho de refletir sobre os manifestos quase diários de Jana Lauxen, ou deram atenção aos textos líricos de Flávia Brito? Como assim, nunca ouviram falar no Coleira do Cão, de Fabrício Romano, em Arlquim, ou nas críticas do Cinema e Bobagens, de Beto Canales, ou nas procelas e digressões de Luiz Gonzaga B. Jr.? As poesias e prosas de Anna Karla, do do Pequena Cidade: Âmbar, já leram? Não? Que absurdo! Sabem o que é isso? BLOGOSFERA NO PODER, meus senhores e minhas senhoras.
Este ano lanço meu primeiro conto, publicado em uma antologia conhecida como Assassinos S/A, da editora Multifoco. Progredi muito. É um resultado concreto. O primeiro de tantos outros, espero. Devo isso à minha querida Yoko (mais uma vez), que acreditou mais no que eu escrevo do que eu mesmo nos últimos dois anos, ao meu caro Denny, que foi o primeiro a se dar ao trabalho de ler textos meus e me enviar as correções de bom grado, à Jana, primeira blogueira que conheci capaz de transformar pensamentos em realidade e levar à sério o que faz como escritora, uma inspiração, ao Cavanhas, que desde a primeira vez que comentei no seu blog me respondeu com carinho, e me recebeu, e trocamos experiências mútuas e extremamente construtivas, e a todos aqueles que estando ou não na minha lista de amigos (são muitos, me desculpem por não nomear um a um de vocês como merecem), se linkaram mutuamente para formar uma corrente de escritores que varre o país. Me envolvi com projetos muito legais, como o E-blog e o Avant Garde. O que fazemos é importante. Talvez mais que possamos imaginar. Sempre digo, e não canso de me repetir, continuemos caminhando, passo a passo, consolidando cada conquista, em nome do nosso constante criar.
Por todos os poetas que vieram e que virão,
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Blogosfera no poder - Selo
Soldados do contemporâneo, criadores. Em forma humanóide, com mãos e pés grudados, como um imenso ser uno bizarro e semi-rastejante, criador e destruidor, desforme e terrorífico, amável, seguimos oníricos. Partilhamos e compartilhamos, partimos e repartimos e re-partimos o lógos de um semi-manifesto! Viva a W3! Viva 23 de dezembro de 2012! Que venha o apocalipse!
Poder
Blogosfera,
Blog esfera,
esfera,
Armilar,
Arma e lar,
Esfera armilar,
Blogosfera Armilar
Blog, esfera, arma e lar
Mais selos -
E para celebrar a blogosfera nesse post atípico (na verdade todos os posts são atipicos), vão os selos que ganhei. Ganheio e roubei. Roubei de
quem roubou de quem roubou, de quem ganhou, de quem ganhou, de quem ganhou...
1. Sabe de uma coisa
2. Afobório
3. Blog da Jana
4. Bloco das Nuvens
5. El Club Silencio 
6. Digressões e Procelas
7. Pequena Cidade Âmbar
8. Arlequim
9. Cartolina
10. Olavo de Carvalho