Ela tinha cólicas. Ele passou o olho pelo site, clicou em cidades, correu brevemente pelas notícias subindo e descendo a tela. Ela colocou o absorvente na calcinha e se vestiu. Ele minimizou a janela e entrou novamente no bloco de notas. Um helicóptero passou do lado de fora. Parecia próximo. Uma sirene na rua. Ele colocou os dedos sobre o teclado e olhou para a tela como quem olha para um papel em branco. Iniciou mais uma história. Apagou tudo. Ela saiu do banheiro e acendeu a luz do quarto. O sutiã estava sobre a cama. Ela o vestiu e colocou uma blusa. o quarto era iluminado pelo banheiro. Ela apagou a luz e ficou no escuro. O apartamento parecia completamente vazio. O prédio parecia completamente vazio. As ruas pareciam completamente vazias. A cidade parecia completamente vazia. O estado parecia completamente vazio. O país parecia completamente vazio. A Terra parecia completamente vazia. A mente de Buda. Marte! Uma supernova nos confins do universo. Ele começou a escrever uma poesia. Olhou pela janela. As luzes apagadas. Somente o computador iluminava o escritório. Os braços magros contorciam complexos nervos que em um sistema quase perfeito forjado pelo próprio acaso fazia com que os dedos transmitissem ao computador a mensagem que o cérebro enviava. "Se eu fosse Peter Pan". "Cinquenta cents e uma pá". "A impiedade da rocha". "A fragilidade do coração". Deleteeeeeeeee... Tudo de novo. Passos na escada. Uma fresta de luz por baixo da porta. Uma fechadura. Escuridão. Batida. Ela saiu. Ele ficou escrevendo. Começou novamente. O elevador soou. Lá fora tudo era claro. O próprio destino era claro. Era luta. Era vontade. Ele levantou-se. Seu lóbulo direito doía. Períodos curtos, era o que o editor havia falado. Tudo tão simples quanto um grunhido. E quando tivesse tudo ao alcance, não teria nada. Ele endireitou-se na cadeira. Pensou em beber. Pior que beber e dirigir é beber e escrever. Homens das cavernas. Lembrou-se. Neandertais. Seu coração batia forte, acelerado. Um trem de carga. Um vagabundo iluminado. Um trem de feno. Cowboys atiram para o alto. Correm em seus cavalos. Uma aventura galáctica no velho-oeste. Tudo é galáctico para quem vive aqui. Moramos na Via Láctea. Na via do leite da vaca cósmica, que escorre. Uma viagem de bilhões de anos na velocidade da Luz. O plano de Deus, a evolução, e só. Sem pernas decepadas, tetraplergia e mães e irmãos assassinados. Tudo isso é culpa deles. Dos homens. Deus só tem um plano: e-v-o-l-u-ç-ã-o. Darwin é meu pastor... As letras vão surgindo novamente. Será que a alma que comanda océrebro, que comanda o braço, que comanda as teclas, que comanda a CPU, que comanda os elétrons do monitor, será que a mente que comanda os elétrons acertou dessa vez? Não. Uma página inteira deletada. O tempo é relativo. Ele riu. Piadas de redação. Escândalos políticos. Estava cada vez mais medíocre. Escrevia cada vez pior. Cada vez menos. Mas acreditava em si. Em nome do parlamento. Que caia uma bomba atômica sobre a Câmara Legislattiva se o narrador estiver mentindo. Era uma erupção vulcânica. Sem precisão. Ele começou novamente. O celular tocou. Ela estava no banco de trás do taxi. Liguei para me despedir. Não quis atrapalhar. Ele digitou aquelas palavras em silêncio. The Song Remains The Same - 5:30. Como está o trabalho? Médio. Estou no prazo. Que horas você volta? Não sei. "TIGER, tiger, burning bright In the forests of the night, What immortal hand or eye Could frame thy fearful symmetry? In what distant deeps or skies Burnt the fire of thine eyes? On what wings dare he aspire? What the hand dare seize the fire?"(Blake). Você está sempre no prazo. Eles riram. O coração estava cheio. Um beijo longo em algum dia de um passado recente. A terra tremeu e engoliu as vidas. Um coração partido. Mil corações partidos. Cem mil corações partidos. Dedos, brita e concreto. Concreto demais. O que está acontecendo com o mundo, que nada acontece? Você pensa demais. preciso continuar isso aqui. Está no meio do texto? Nem no começo. Mas tive uma idéia. Aproveite. Aproveite. Amo você. Idem. Beijo. Beijo. Tudo estava quente e bom. O mundo é muito grande. Ele começou novamente. Over The Hills And Far Away - 4:50. Os dedos vacilaram novamente. Será que deveria voltar a algo antigo? ainda não. Venceria? Sim. Ainda não. Um suspiro antes da queda. Um mergulho. Suicídio. assassinato. Palavras, palavras, apenas palavras. Palavras o suficiente para encher um grosso periódico diário. Meio de comunicação. M-e-i-o-d-e-c-o-m-u-n-i-c-a-ç-ã-o. Um meio para se comunicar. O ar. Muitas vezes, o ruído é a própria alma. Como dizer tudo? Não havia verdade nas notícias. Eram muitas mortes, muita tragédia, muita gente, fezes demais. Morte, Peste, Guerra, Fome. Foco, concentração. Poesia. Beirut, Irã, Luanda, Angola, Haiti. Eles compravam navios negreiros e então libertavam os negros. A primeira nação livre da América. Será que uma poesia...? Não. Nada de poesias. Apenas silêncio. Os dedos corriam alucinados como cavalos de corrida. As letras surgiam istantâneas na tela. Frururururururu. Frurururuurur. Frururururururuur... A testa franzia. Expressões subconscientes. Um milênio de silêncio. Adeus. Ele desligou o monitor. Ela desceu do carro. Ele acendeu a luz da sala. Voltou ao escritório, aumentou o som e pegou o texto na impressora. Pronto. Uma merda. mas dava para enganar. Ao menos até a próxima semana. Serviria, gostariam, estava melhor do que imaginava. Pensando bem, não era tão mal assim. Uma garrafa de suco de laranja. Gomos corriam pela garganta. Frescor e cheiro do vitamina C. Um barulho de fechadura. Você voltou, tão cedo?! The Ocean - 4:31. Ela sorriu, deixou a bolsa no sofá. Ela o abraçou. Eles se beijaram. Aquele alento. Me faça parar de tremer... Não.
sábado, 30 de Janeiro de 2010
sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009
Com a mão nos olhos
O moço mudou de posição. Cansado da leitura sem óculos, e havia perdido seus óculos, levantou-se. Sua pele branca ficou marcada de vermelho pelas dobras dos músculos, da gordura e do lençol. Jogou o livro em cima do jornal, no chão. Olhou novamente para o caos do pequeno quarto alugado em busca das lentes, que não estavam de fato lá. Olhou para o porta-retrato com entes amados. A palavra “ente” é apropriada no caso. Não interessa aos leitores, por não ser mesmo do bico deles, saber quem sorria na imagem. O moço passou a mão nos olhos. Levantou a persiana. Queria iluminar a pequena toca enquanto ainda durasse o sol, e sentir a escuridão e o frio da noite, e só depois utilizar-se dos benefícios da vida moderna. Mas não resistiu, ligou o som. A imagem do menino morto no caixão o assombrava. O menino cinza-pálido no caixão, ceifado por um caminhoneiro alcoólatra que invadiu a faixa contrária. O caixão branco, as vestes brancas, as flores brancas, cercadas do negro-luto de nossa cultura. Ele afastava a imagem, que voltava. E por vezes a face do jovenzinho, que se tornara como um boneco feio em seu rigor-mortis, era substituída pela do filho de sua namorada, criança que ele tanto amava. E aquilo o estremecia. Era suficiente para encher seus olhos de lágrimas e seu coração de horror, e comungar com a dor daquela família que aquele agente da polícia civil acompanhou tão breve e marcantemente. Morreram a mãe, o pequenino, o primo do pequenino, e tia do pequenino. Sobreviveram o pai e a avó, sogra do homem, se é que pode-se dizer, em um caso duro como esse, que de fato sobreviveram. Eles mesmos diziam que não, que não haviam sobrevivido. E o pai, como qualquer cidadão mediano pode constatar, não sobrevivera, embora guardasse vida e consciência em seu corpo cada vez mais curvado e magro. As coisas sempre voltam em uma bagunça. Se perde uma caneta especial, e se ela está lá, logo se a encontra. O mesmo com uma jóia de família. O mesmo até com os sentimentos. Bem sabemos. Na confusão da alma, aquela velha paixão, aquele rancor, aquela alegria cândida e breve, sempre emergem e imergem. Se não aparecem, se não há um remorso ou um orgulho, é porque nunca estiveram lá, como os óculos perdidos. Mas você não perde uma mesa ou uma geladeira. Alguns traumas são como verdadeiras máquinas de lavar nas almas. O moço tomou um banho, trocou de roupa, arrumou um pouco a bagunça. Preparou-se para sair a noite. Também lhe vinha a mente a boca escancarada daquele outro homem que morreu com um tiro no peito e ficou com a cabeça pendendo para trás na cadeira. A bocarra escancarada com todos os dentes à mostra, e a roupa bonita de executivo, e as inúmeras moscas que entravam e saiam da goela seca, a face dura do pequeno em seu caixão, o tórax imóvel do atropelado, que imóvel fica estranho, como se estivesse torto mesmo sem estar, aqueles fantasmas que assombravam aquele homem sozinho em casa, ficavam o tempo todo fazendo-o pensar no medo dos medos que mais o assombrava por ele perceber que existia, o medo da farsa, da grande farsa conspiratória que ele mesmo era. Braços e pernas partidos, corações parados, cérebros como apenas medidas de quilo. Esse medo não é exclusivo. Todos têm, mas nem todos o percebem ou o reconhecem. Ele olhava para a arma no coldre, no cabide com o casaco, ao lado da porta do quarto, e sabia que tudo era uma grande farsa, e ele de alguma forma amava profundamente a farsa, mas por ser farsa, a odiava com a mesma loucura dos amantes traídos, que morrem de ciúmes e imaginam dores e assassinatos. As vezes até o executam. Um carro, um computador, uma banda larga, o direito de votar, o direito de falar e o de ficar calado, a presidência da república, o senhor ministro do comércio exterior, o doutor delegado que de doutor tinha tanto quanto um médico, isto é, nada, a morte a caminho de casa, os encontros e partidas, os portos, as constituições, os sistemas políticos, o parlamento e todos os sujos, e não há exceções, parlamentares demagogos, os capitalistas, os comunistas, os religiosos e suas religiões mortas-vivas, mais mortas que aquele ex-pai que nunca deixará, para sua infelicidade, de ser pai de um menino morto enquanto ele mesmo guiava o carro, o vômito na sarjeta, a sarjeta, a energia elétrica e as cirurgias bem sucedidas, toda aquela merda imunda, aquela grande bosta de mundo, que é este mesmo em que nos sentamos para navegar em um espaço informativo que também não existe, tudo isto que rodeava o agente, tudo uma farsa mentirosa, uma grande farsa, farsa, farsa, farsa. Mais vivos estão os que morreram e, como diz o sábio ditado, sabe-se lá proferido pela primeira vez por que ditador, o pior cego é aquele que não quer ver. Tudo uma grande farsa, com marketing, publicidade, mídia espontânea e muito neon. Nada que uma bala bem enfiada na cabeça não aclare as coisas. Nada que uma batida a caminho do trabalho ou de um encontro, ou na volta para casa, que um atropelamento, que um câncer maligno ou infarto fulminante não resolva. O agente olhou ao seu redor, tão vazio quanto cheio, com a alma em bagunça como qualquer um, tomou seus medicamentos, pegou a chave do carro e partiu. Sabia bem do que precisava. Tudo que precisava era de uns anos na cadeia com a bandidagem que ele ajudou a prender, aprendendo, um processo que resultasse numa demissão e num arraso financeiro tão grande, que, menos que a morte, só o restasse recomeçar, para que começasse verdade. Mas era um momento ínfimo aquele. Ele pegou os documentos e a chave do carro e foi comemorar o natal. Para adiantar a história e não nutrir expectativa quanto ao fim, adiantamos que ele foi, voltou, dormiu, trabalhou na delegacia e tudo o que manda o figurino roto e mal bolado da vida moderna. Menos casar-se. Isso não dava. Preferia amar em silêncio sua namorada e o menino, filho dela. Mas foi com insegurança. Sentia que poderia vacilar e bater o carro, e matar alguém, ou morrer, e que não tinha garantia de nada. Sentia que alguém poderia fazer o mesmo e matá-lo. Sentia que poderia ele mesmo dar cabo de sua existência com um tiro fácil, com uma overdose de alguma coisa, ou matar alguém. Matar quem mais amasse, para eternizá-lo, fosse seu irmão, sua mãe, sua mulher ou o menino que era seu protegido. Sentia tudo. Era transparente, por isso não era tão mal refletir a mentira, já que ele mesmo não era a mentira. E graças ao surdo Deus, se é que esse velho sacana anda mesmo por aí, ninguém de fato é a mentira. Uma pena que generalizações limitam e tornam-se elas mesmas mentiras em um mundo tão amplo. Mas ele sentia, nisso, um alento. Sensível a tudo, como o verdadeiro guerreiro, por mais que lhe doesse tanto ser quem fosse e uma farsa como qualquer outro ser humano o é, ao menos sentia a vacilante certeza de tentar ser puro, fosse como fosse. É claro que um raio ou um avião, um carro bomba, um atentado, uma queda burra na calçada poderiam matá-lo, mas foda-se. Ia viver. Viver e pronto. Custasse o que custasse. Sempre perguntaria à morte: “se fosse morrer agora, é aqui que eu queria estar?”, e ela sorriria, e ele saberia que se a resposta fosse “sim”, ele estaria bem, e se fosse “não”, ao menos saberia que precisava mudar de lugar ou de vontade. E ele mesmo acendeu o pavio da vela do bolo da irmã adotiva de sua prima, que fazia anos no dia 25, e era a mulher que ele verdadeiramente amava, e não a sua namorada. Era natal e não importava. Que coisa...
quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
Ciclo de leituras
Então Tudor, paramentado com sua armadura, suas armas de guerreiro, sua capa e sua touca de cabeça de urso mágica, exausto após ter tomado a água do Rio do Esquecimento, adormeceu profundamente, sem perceber que ao seu redor todas as árvores e flores e frutos da floresta mudavam de lugar.
Por isso a floresta era chamada de Trilha da Perdição. Para sair de lá eram precisos vários dias, e era preciso dormir para descansar. Ficaria o jovem perdido eternamente entre as belas e mortais folhagens tropicais? Haveria uma saída? Ele voltaria a ver sua querida Bô-Bô e seu amado irmão Ishtar? Isso é o que veremos no próximo capítulo...
Não! Eu quero ouvir mais! Eu sei que você quer ouvir mais, mas agora é hora de dormir. Mas eu não estou com sono. Você precisa dormir para ficar forte de novo. Não quero! Dorme, filinho. Papai está cansado também. Mamãe já está dormindo. Amanhã o médico vem aqui e vai dizer se você já pode levantar e voltar a brincar na rua como os outros meninos, e mais tarde a tia Eulália, amiga do papai e da mamãe vem aqui com a Fauna e vamos jantar pato. Dorme que o tempo passa mais rápido. Vai ser um longo dia... Ta bom então (bocejo). Boa noite, papai... Amanhã me conta mais da história? Prometo. Vamos descobrir como Tudor conseguiu escapar da floresta terrível! Agora durma (beijinho). Prometo que quando estiver bom vamos acampar e jogar bete até o dia raiar.
Então o pequeno Zéfiro, sentindo o pulmão pesado como sempre e o coração leve como nunca, adormeceu com sua pedra verde da sorte entre os dedos. Mas sem que ele percebesse, todas as árvores ao seu redor também mudaram de lugar, e o mundo se transformou. Quando ele abriu os olhos, estava em uma terra distante e feliz, cheia de aventura, com outros meninos como ele, e até a pequena Bô-bô estava ao seu lado. Lá eles brincavam, se aventuravam e corriam por fontes e abismos. Todos os dias eram felizes como aniversários e ele nunca mais crescera.
quarta-feira, 29 de Julho de 2009
Querida Louanne,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! voar!...
Escrevo-lhe esta carta porque esta manhã me olhei no espelho do banheiro e vi, no reflexo, no criado mudo de minha mãe, um livro cuja personagem principal leva seu nome. É um livro de magia e realidade destes que nos inspiram a agir mais impulsivamente, sem levar em conta paradigmas sociais que tanto nos emperram. Um livro que te segura pelos braços, olha bem dentro de seus olhos e diz: “um copo é só um copo”. Essa é uma carta de amor e amizade. Quando vi o livro, ele me remeteu à história, quando me lembrei da história, já nebulosa em minha mente febril, me lembrei da encantadora protagonista, e quando pensei nela, associei os nomes, e pensei em suas mentiras Louanne, em suas agraciadas mentiras que me fazem sonhar até hoje. Diante do espelho meu rosto se partiu. Não porque o vidro estivesse quebrado ou trincasse em resposta as meus sentimentos. Meu rosto se partiu. Meus olhos choraram e meus lábios sorriram. Foi isso que aconteceu. Ajustei a gravata. Me disfarço bem de “cidadão”. Seu nome e sorriso palpitaram em meu peito. Continuei simulando uma vida como faço todos os dias. Você não está em Brasília, está longe, casada, talvez feliz. Não sei se você simula uma vida também, mas não duvidaria disso. No entanto sou obrigado a dizer que nossas velhas mentiras eram bem mais reais que a vida que levo hoje. Isso não é exatamente triste. Apesar das falsidades temos momentos de felicidade por aqui. De todos que conheci levei algum sonho comigo. Ir à Lua, ir à Roma, fazer a cama na varanda, voltar para a França, pilotar um avião, pilotar um carro de Fórmula 1, fazer cinema, virar ator, aprender violino, satisfazer uma paixão arrebatadora, voar de asa-delta, pular de pára-quedas, dar a volta ao mundo, ter um amor impossível, passear de submarino e até fazer amor em Chernobyl... Milhares de coisas que vivem como ecos em meu ser, e que, como um mosaico, me ajudam a compor meus próprios sonhos. Afinal, sonhos são feitos de sonhos e só assim eles podem se tornar reais um dia. Só você é que nunca me contou o que sonhava, e me obrigou a sonhar que sonhava seu sonho para compor o meu. Cativo estive todos esses anos desse misterioso sonho que sonho que sonhas quando sonho, como o pássaro de Olavo Bilac. Quero voar. Quando partiu você me disse que eu estava atrasado em concretizar meus sonhos. Estava certa, Louanne. Desde então, cada verdade, cada mentira, cada manhã, cada gota de suor, por mais avessa que possa parecer às idéias com que sonho, são todos voltados unicamente para essas idéias. Se fosse morrer agora você gostaria de estar aonde? Me lembro que me perguntou isso. Devolvo a questão. Hoje sei que a resposta deveria ser sempre “aqui”. Qualquer resposta contrária nos permite levar a crer que o inquirido é categoricamente infeliz. Quero ao cair da tarde cantar tristíssimas cantigas. Te entreguei meus sonhos. Você, ao menos você, levou meus sonhos. Minha Louanne sei que estamos distantes em espaço e sentimentos hoje, mas te convoco em meu coração. Vamos viver o mito. Mais que morrer, viver por uma idéia, por um sonho, seja o sonho que for. Tens coragem? Será que hoje sou eu quem dança e sorri, e que você deixou-se esfriar pelas convenções? O mundo esta mudando. Está na economia, na política, na ética, na ciência, na religião, na filosofia... Não quero ter meus pés presos no concreto. A maré está subindo. Está subindo e busco avidamente por um conhecimento, um segredo Louanne. Um segredo que é o ato de ter teus lábios sussurrando em meus ouvidos, ou de alcançar o topo de uma montanha no fim da tarde. Um vídeo rápido sobre coisas ternas, simples e desconexas, uma música desafinada tocada por uma harpa, uma verdade que não está na razão e não está na irracionalidade, as batidas do coração, um sapo, um girino, uma árvore, uma estação do ano. Não sei teu endereço. Quando me abandonaste pela primeira vez escrevi um texto que nunca te mostrei, “À Louanne”. Nele eu saia pelo mundo buscando por você, e deixava um recado para que me esperasse se você voltasse antes de mim. Agora saio em busca novamente. Não há linha reta, não há alguém, apenas um sonho indizível perdido em um mundo exponencial. Louanne, você está dentro de mim.
Do sempre, sempre seu, Edgar.
